domingo, 26 de novembro de 2023
As negras batinas da conjura de Minas - Maria de Lourdes Dias Reis
segunda-feira, 11 de setembro de 2023
Uma Breve História do Cristianismo
domingo, 13 de agosto de 2023
Corrupção: lava jato e mãos limpas - Maria Cristina Pinotti (ORG.)
Corrupção: lava jato e mãos limpas
No Prefácio, o Ministro do Supremo Tribunal Federal (que não faz jus dizer o nome), mostra sua cara de esquerdista, produzindo um texto tendencioso e mentiroso. Não cita a corrupção nos governos de esquerda no Brasil desde 2003, e mesmo quando cita o Mensalão nem sugere quem era o presidente da época, apenas as punições de seus assessores. E tem a cara de pau de afirmar que o Judiciário brasileiro não tem influência política, mesmo sabendo que são indicados para o cargo para o STF pelos Presidentes. Tenta transmitir uma mensagem de otimismo sobre o combate à corrupção brasileira, sendo que ele mesmo teve o descaramento de ir ao Congresso intimidar os legisladores a não votarem o voto auditável, para facilitar a fraude nas eleições de 2022. Além de agredir verbalmente, nos Estados Unidos, um eleitor contrário ao seu posicionamento político nas eleições com a frase que entra para o folclore nacional do já famoso "Perdeu, Mané". A organizadora do livro errou ao escolher a pessoa para fazer o Prefácio do livro.
Na Apresentação, a organizadora do livro, apesar de sua esperança no combate à corrupção pelo Judiciário brasileiro, mostra o fracasso que foi na Itália; mas como o livro foi escrito em 2019, não pôde presenciar o desastre político que foi no Brasil. Parece até que o Supremo Tribunal Federal copiou o modelo italiano na íntegra, mudando a legislação e inocentando todos os culpados, mesmo com a devolução de bilhões roubados dos cofres públicos. Com certeza, vai ter que produzir um novo livro. Segue, a autora mostrando as relações existentes entre as instituições nacionais, a prática da corrupção e a cultura. Realça que a corrupção sempre existiu no Brasil, mas com o governo petista virou uma corrupção sistêmica, ou seja, o PT só governa utilizando o recurso ilícito da corrupção. Mostra também os erros cometidos pela Presidenta Dilma que levou a sua deposição, que foram muito além das famosas "pedaladas".
O próximo autor relata todo o processo desenvolvido na Itália sobre o caso Mãos Limpas, do qual participou desde o seu início, destacando toda a composição da equipe de investigação e como tudo começou, situação semelhante ao que aconteceu no Brasil anos depois. Importante ressaltar o tamanho da equipe investigativa, que foi composta de mais de 5 mil pessoas de todas as áreas jurídicas e policiais. E também o tamanho do quadro investigado, e que teve seu começo numa simples revelação de uma pessoa procurada para se corromper, que terminou entregando um sistema gigantesco de corrupção que a cada dia aumentava o número de envolvidos, inclusive juízes de tribunais. Como no Brasil, os investigadores, em determinado momento, passaram a ser condenados injustamente com mentiras, e tiveram que provar sua inocência. A solução apontada pelo autor não passa apenas pela punição dos culpados, mas pela Educação para o cumprimento das leis do país.
Segue outro autor dos artigos relatando sobre o processo de corrupção na Itália e seu combate com a Operação Mãos Limpas. Fala de detalhes sobre a relação entre a máfia, os políticos, os magistrados, empresários, e como isso acontecia na prática. Mostra que este fato já acontecia há mais de vinte anos, e não tomou tal envergadura na investigação até 1992. Analisa as razões da investigação ter acontecido naquela época, e aponta como uma das causas o período de decadência econômica da Itália, sendo que alguns defendem a queda do muro de Berlim, como fator determinante. O sistema de corrupção é detalhado na sua formação e julgamento. Cita, o autor, casos específicos do enfrentamento com a Justiça. Inclusive um condenado afirma que não existe balanço com cálculos corretos, ou seja, são todos forjados.
Deltan Dallagnol mostra com detalhes todo o esquema de corrupção ocorrido no Brasil, e principalmente na Petrobras, e sua relação com a classe política e empresarial. Destaca que nem todo político participou do esquema, sugerindo que pode haver um novo modo de se fazer política com pessoas honestas, que devem entrar para a classe política, pois esta é a solução para se eliminar a corrupção. Interessante notar a declaração de um condenado ao afirmar que a corrupção no estilo atual existe desde o governo Sarney. Não quer sugerir que o Regime Militar foi mais confiável que a Nova República? Talvez. Se foi, "quantos sonhos foram vendidos, tão caros, que eu nem acredito" (Plagiando Cazuza). Algumas informações são muito importantes como: desde 2003 o PT indicou todos os cargos da Petrobras; os processos eram divulgados ao vivo para qualquer cidadão que tivesse acesso à internet, inclusive a imprensa acompanhava todo o julgamento ao vivo e divulgava minutos depois; os advogados que defendiam os acusados eram competentes e caros; as delações eram feitas por iniciativas dos próprios acusados, ressalte-se que muitas delações foram dispensadas pelos juízes por ausência de importância para o processo; para o sucesso das condenações a opinião pública sempre foi necessária; os julgados, que eram ricos e poderosos, sempre criaram narrativas falsas para desqualificar os juízes, e nenhum destes pertencia a partido político e eram concursados; durante o processo, o Legislativo criava leis para desqualificar as condenações e reduzir as penas dos condenados, chegando a propor emendas à Constituição; o STF também teve seu papel na aprovação de medidas para redução de penas dos condenados poderosos e ricos.
Sobre o STF, o texto abaixo mostra sua história de conivência com o poder, que perpassa toda nossa história política desde a República Velha, ou seja, nunca esteve contra os poderosos, mas sim, ao lado deles (Marco Antonio Villa).
31 Marco Antonio Villa citado em Luiz Flávio Gomes, O jogo sujo da corrupção: Pela implosão do sistema político-empresarial perverso. Em favor da Lava Jato, dentro da lei, e pela reconstrução do Brasil. Bauru: Astral Cultural, 2017, pp.167-8.Quando falam da liberação de presos condenados, fica clara a opção por presos que tinham penas maiores e valores desviados em milhões, como é o caso de José Dirceu, condenado a mais de trinta anos de prisão e com desvios vultosos, isto só na Lava Jato, sem contar o processo do Mensalão. Alguns juízes se destacaram nessas liberações, como Gilmar Mendes, que em uma única decisão liberou 47 condenados em segunda instância. Poucos juízes tomaram partido da efetivação da Justiça contra esses condenados do colarinho- branco. Interessante notar como hoje votam pela liberação das drogas, e até 2018, os traficantes eram condenados pela STF. É contradição uma atrás da outra. E a esperança do povo em relação à Suprema Corte do país vai para o lixo. Sobre a Lava Jato é relevante notar a semelhança com o processo das Mãos Limpas na Itália, parece até que os condenados copiaram na íntegra sua prática, pois até usar as regras do futebol para planejar as falcatruas entre as empresas foi uma aberta semelhança. Outra informação importante foi sobre as delações premiadas, pois estas não eram aceitas como os condenados as contavam, sem antes fazer sua confirmação através de pesquisas pelos tribunais e juízes, pois as mentiras eram mais que comuns entre os julgados.
Incrível: Ninguém previu o desastre ocorrido durante as eleições de 2022, mesmo sabendo do final da operação Mãos Limpas; com a descriminalização dos envolvidos na Lava Jato, e a decretação da inocência de Lula, mesmo após mais de um ano de prisão, para garantir sua candidatura. Vale a pena a leitura do livro para o conhecimento do processo da Lava Jato e sua relação com o de igual teor, a Operação Mãos Limpas na Itália, que terminou da mesma forma que o processo brasileiro, e para se entender como funciona a "Justiça" em nosso país. A esperança é como o tempo; muda quando menos esperamos.
quarta-feira, 7 de junho de 2023
O Livro Negro do Cristianismo
O Livro Negro do Cristianismo
Dois mil anos de crimes em nome de Deus
Jacopo Fo. Sergio Tomat. Laura Malucelli
Introdução
Na Introdução os autores fazem uma evolução das atrocidades cometidas pela Igreja Católica do século IV, quando se tornou a Igreja oficial do Estado Romano, até o século XVIII. Mas distingue estas ações dos trabalhos humanísticos dos cristãos distanciados das lideranças do clero corrupto existente ao longo da História. Mostra que o mundo é mais humano hoje por essas ações. Um nome importante nestas ações humanas foi São Francisco de Assis. Fala resumidamente sobre as violências praticadas na Europa pela Inquisição, que atingiu outras regiões como a América Colonial e a África, e a omissão e apoio dado ao genocídio judeu, ao nazismo e fascismo, e às ditaduras sanguinárias da Europa e da América Latina.
Desenvolvimento
Muitos podem pensar que o autor já vai falando das violências praticadas pela Igreja Católica em sua história, mas este não é o plano da obra. Começa narrando, e fazendo leves considerações sobre o surgimento de Jesus e Paulo no cenário dos primeiros cristãos. Realça a diferença entre as pregações de Jesus diante dos discursos de outros "profetas" de seu tempo e das ideias e práticas dos fariseus. Mostra também, mais longamente a ação de Paulo, antigo perseguidor dos cristãos, e depois o principal divulgador do cristianismo pelo mundo conhecido da época. Sobre Paulo destaca sua discriminação com as mulheres, coisa diferente da prática de Jesus, e suas diferenças com os discípulos, mostrando um lado pouco cooperativo nas relações com seus companheiros, inclusive com Pedro, considerado o Pai da Igreja.
O autor trabalha bem a questão histórica da origem do Cristianismo, principalmente explicando como teve início a relação do Império Romano com os primeiros cristãos. Faz uma biografia de Constantino que deu início ao domínio do Império Romano sobre os primeiros cristãos. Mostra a política adotada por Constantino quando percebeu o crescimento dos cristãos na sociedade da época, diante dessa nova realidade, dá liberdade de culto a uma seita, antes subversiva que passa a fazer parte do governo imperial. Mostra o lado cruel de Constantino, um Imperador assassino, que passa a dominar toda a sociedade, agora com o apoio dos cristãos, que recebem cargos públicos, coisa não aceita pelo cristianismo primitivo. Começa então o poder político e econômico da Igreja Católica na Idade Média. De perseguidos passam a ser perseguidores de hereges. Constantino convoca o Concílio de Niceia que determina a Trindade e a unidade do Catolicismo.
Sobre os hereges e as heresias mostra, o autor, que eram questões mais de unidade da Igreja e ajustes políticos. Os Concílios tinham como objetivo desfazer quaisquer divergências com o pensamento majoritário sobre as questões doutrinárias, que muitas vezes eram revistas em Concílios futuros. Revela também que até hoje as heresias da Idade Média continuam vivas em Igrejas de países, principalmente na África e Oriente. Mas as questões das heresias foram acompanhadas de punições e assassinatos. E os privilegiados tinham direitos políticos como a isenção de impostos e transmissão de cargos por hereditariedade. Enfim, era um bom negócio estar com a maioria. Mas muitos tiveram a coragem de combater esta situação e defender suas ideias.
As lutas religiosas e pelo poder continuam sem parar, e os Papas fazem parte desses conflitos para garantir um patrimônio maior para a Igreja. Os Concílios se sucedem para combater as heresias e confirmar ideias dos governantes em matéria de doutrina católica. O Ocidente e o Oriente lutam em busca de uma unidade política e religiosa... e as milhares de mortes se sucedem. No tempo de Carlos Magno, rei francês, a Igreja novamente se alia ao Estado acumulando poder que se estenderá por toda a Idade Média. Carlos Magno conquistou quase toda a Europa impondo com violência seu poder político e da Igreja. Foi venerado e coroado pelo Papa como Imperador do Sacro Império Romano, consolidando a separação da Igreja Ocidental da Igreja de Bizâncio, ou Império Romano do Oriente. O autor faz um relato sobre os Papas mais licenciosos do período; que de religiosidade não tinham nada.
Sobre as Cruzadas o livro possui um capítulo mais amplo, pois as ações do Movimento foram extremamente importantes para mostrar como a Igreja Católica apoiou e usou a boa vontade e religiosidade das pessoas na Idade Média para alcançar os objetivos papais, utilizando métodos condenáveis como o grande número de assassinatos em nome de Deus. A narrativa é de deixar espanto em leitores menos acostumados com esse tipo de informação. Até as crianças participaram das Cruzadas, e a Igreja viu tudo sem se manifestar, pois faziam parte de seu projeto de poder a todo custo. No capítulo sobre as heresias faz uma relação da ação dos hereges com o poder instituído da Igreja e da nobreza. Mostra como os hereges foram reprimidos de forma violenta e assassina para garantir o domínio da classe dominante eclesiástica e nobre sobre a sociedade medieval. Faz um relato breve sobre algumas heresias e suas características na prática religiosa de seu tempo. Interessante notar como a Igreja perseguia as próprias Ordens Religiosas utilizando o recurso das Cruzadas.
O autor faz um bom estudo sobre a formação do texto da Bíblia, inclusive mostrando que os cristãos, os judeus e os muçulmanos são os religiosos do livro, pois seguem os ensinamentos escritos de suas respectivas religiões. A Bíblia católica surgiu depois de uma união dos vários textos esparsos selecionados por São Jerônimo, no século IV, formando a edição chamada de Vulgata, escrita em latim. Depois foram publicações em línguas nacionais, principalmente depois do surgimento da prensa de Gutenberg. Este fato aumentou o número de edições, logo a Igreja passou a proibir sua leitura pelo povo, pois assim veriam as contradições dos escritos bíblicos com a prática do clero católico. A Bíblia foi o primeiro livro impresso pelos tipos móveis de Gutenberg. A Inquisição ganha um capítulo inteiro no livro, e revela fatos interessantes e pouco conhecidos sobre a instituição, como a divisão dentro da Igreja Católica sobre sua prática. Não foram todos os religiosos que apoiaram a perseguição sistemática dos hereges dentro da prática religiosa, principalmente na Idade Média.
A famosa caça às bruxas na Idade Média ocupa lugar de destaque no livro. Interessante notar que este fato não se limita ao período medieval, mas se estende pela Idade Moderna, e sendo praticada tanto por católicos como protestantes depois da Reforma de Lutero. O autor mostra alguns métodos de tortura, os motivos e o principal alvo que eram as mulheres. Certamente um combate da sociedade patriarcal ao poder da mulher, principalmente nas curas de doenças com ervas medicinais e, na função primordial de parteiras. É um capítulo recheado de atos violentos contra o ser humano praticado em nome de Deus. Dá uma certa revolta ver retratada e registrada tanta violência, inclusive contra crianças. E surpreende a ação das Ordens Religiosas, principalmente dos Dominicanos no processo, pois os escritores do Martelo das Feiticeiras eram monges dominicanos.
A Reforma Protestante, principalmente a partir das ações de Lutero e Calvino não desfaz a prática violenta da religião na Idade Média. Lutero foi corajoso ao enfrentar o poder do Papa e contestar a aberração das Indulgências, que parece ser o ápice da corrupção do Vaticano. Mas os protestantes também praticam seus atos de violência contra os católicos. De qualquer forma, o Protestantismo marca uma nova fase na História religiosa, principalmente da Europa. O autor é bem didático na produção do texto sobre a Reforma Protestante. Um texto com subtítulos que esclarecem bem os fatos históricos ocorridos no período, principalmente no século XV, mas sem muita análise, mais uma História Factual, que não deixa de ser útil e informativa. A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), marca o ápice da violência em nome de Deus, pois católicos quanto protestantes vivem momentos de extrema desumanidade, tanto é que o número de mortos durante o conflito se equipara ao ocorrido nas duas Guerras Mundiais do século XX.
Na Idade Moderna, ou seja, a época do Colonialismo e da Escravidão indígena e africana, a Igreja Católica, assim como as Protestantes, tiveram papel preponderante com a violência praticada contra as civilizações nativas da América e da África. Mesmo que alguns padres e Bispos tenham defendido e denunciado as atrocidades, sua ação teve efeito mínimo no quadro geral da colonização/exploração das áreas fora do continente europeu. O Bispo Bartolomeu De Las Casas foi o principal nome nas denúncias dessas atrocidades, tendo publicado livros sobre o assunto e levado a situação até os reis da Espanha. Interessante notar como as Ordens Religiosas participaram ativamente da violência contra os indígenas da América, principalmente a Companhia de Jesus, ou Jesuítas, que torturam e tinham exércitos que impressionaram até os "soldados" portugueses. O Papa sempre foi cúmplice de tal barbaridade em "Nome de Deus". O continente africano sofreu essa violência de forma sistemática até o século XX.
A História da Igreja Católica no século XX e suas relações políticas, sociais e econômicas é de dar indignação a qualquer cristão. É uma mistura de corrupção, violência, falcatruas, pedofilia, mentiras, omissão e nada de cristianismo. O autor faz um relato de arrepiar, mesmo com textos curtos e objetivos. É até difícil de acreditar que uma instituição histórica e tão respeitada foi capaz de fazer tanta coisa degradante ao longo de seu período de poder. E continua a fazê-lo até hoje. Verdadeiras aberrações! Nos Apêndices, o autor fala mais sobre as heresias, e seus principais líderes, sobre a Reforma Protestante e suas lideranças, a Contra-Reforma, e até sobre os métodos de tortura utilizados pela Inquisição. Digno de nota a discriminação feita aos judeus pela Igreja Católica, ainda na Idade Média, quando os mesmos, entre outras restrições, tinham de usar uma identificação para sua crença, como no Nazismo alemão. Talvez daí o apoio do Vaticano aos regimes totalitários no século XX. É um livro pra quem tem nervos fortes!
quarta-feira, 16 de novembro de 2022
Reflexões sobre a História - Beto Souto
quinta-feira, 6 de outubro de 2022
Livro História do Brasil para Ocupados - Luciano Figueiredo (Organização)
Livro História do Brasil para Ocupados
Luciano Figueiredo (Organização)
Introdução
Este livro não é pra ser lido em busca de conhecimento/informação sobre a História do Brasil, mas sim para ser saboreado, como uma fruta gostosa e saudável: "Com sabor de fruta mordida" (Cazuza). Logo na apresentação senti este sabor com uma pequena definição de História: "História é como a casa do Senhor, ela tem muitas portas e janelas". Esta breve definição já nos leva ao prazer da liberdade de se estudar/ler História, a aceitação de várias entradas e saídas em seu "prédio" de viagens e caminhos a seguir, ou desistir. A própria capa do livro me chamou a atenção; como pode um livro de História ter em seu primeiro espaço de visualização uma Nossa Senhora Aparecida em cima da tradicional imagem de Cabral? Não, esta não é uma História para os Ocupados de nosso tempo, é uma História pra quem tem tempo de saborear lentamente cada palavra, cada frase dos textos produzidos pelos historiadores selecionados pelo autor. É preciso ler pouco a pouco, e saborear a leitura, como a criança que deixa a comida mais gostosa pra depois, lá no cantinho do prato. É isto que estou fazendo. Na Apresentação o autor faz uma breve explanação sobre o projeto do livro, que foge aos moldes tradicionais dos nossos famosos livros didáticos que seguem uma cronologia e evolução. E também está longe dos historiadores de gabinetes. É uma História do Brasil para os brasileiros.
Desenvolvimento do texto
Desde o início do livro, os(as) autores(as) mostram sua marca de historiadores(as), ou seja, comprovam o que dizem com a documentação necessária para apresentar sua defesa e refutar ideias ou "viagens" contrárias. Os documentos de conhecimento já tradicionais como a Carta de Caminha e Mestre João, entre outros são valorizados como únicos de credibilidade, pois existem outros que não são claros quanto aos eventos tratados. Isto vale para a Descoberta do Brasil e os primeiros tempos da colonização. E me parece que vale para o projeto do livro em geral, pois os primeiros escritos dão o tom da obra. Me parece que há um resgate da história factual, apesar da análise dos autores sobre os documentos, como se utiliza atualmente, e não deixar o documento falar por si só, como se pensava antes, tanto é que os autores, através dos documentos observam suas relações econômicas, filosóficas e religiosas da época em que são produzidos esses documentos. A evolução dos temas históricos tradicionais, é incontestável, mesmo que exista uma nova visão sobre eles.
Como o organizador do livro disse no início que a história tem várias portas e janelas, recordo meu tempo de estudante, e até de professor de História na década de 1980, quando éramos orientados pelos autores de livros a não falar sobre o canibalismo dos índios brasileiros, mesmo porque o ato não estava registrado nos livros didáticos de História. Nesta época existia uma preocupação em valorizar nossa cultura "brasileira", e o índio era seu início mais remoto. E também a questão do negro também era valorizada como componente de nossa sociedade, e só falávamos bem de Zumbi e do Quilombo dos Palmares. Mas outras portas foram se abrindo e hoje estão escancaradas pela historiografia para todo estudante ver que houve exageros e exclusão também nas classes subalternas da época. O relato de visitantes europeus no Período Colonial são a prova viva que tentamos esconder por tanto tempo sobre nossos indígenas.
Os autores dos textos do livro procuram acrescentar algo novo na História do Brasil tradicional, através de pesquisas mais recentes, isto em todo o tema tratado. A questão da escravização do índio e do negro são destaques nos primeiros trabalhos dos historiadores. E neste quadro entra a invasão holandesa no Nordeste e a participação da cidade do Rio de Janeiro nos eventos, tendo como foco seus moradores e administradores. Mostram como a substituição da mão de obra indígena pela negra alterou a situação de nossos primeiros habitantes até os dias atuais. Buscam os autores fatos novos e personagens quase desconhecidos pelos historiadores, como o baiano, traficante de escravos, Francisco Félix de Souza; e Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz, e traçam uma narrativa de seus feitos dentro do quadro da História tradicional ensinada nas escolas, ou seja, ampliam as informações num estudo mais voltado para a História do Cotidiano.
Os cultos africanos são alvo de estudo, mostrando sua relação com a formação de nossa cultura a partir do século XIX. Dedica quase que exclusivamente ao Candomblé, mostrando sua composição étnica e cultural, ou seja, sua origem africana e a absorção de elementos de outras raças e religiões, principalmente a católica, além de receber trabalhadores de vários ramos de atividades, inclusive professores, apesar, de muitas vezes, receber a falsa calúnia de ser um culto de desocupados. Seguindo o estudo sobre a presença dos africanos no Brasil, o livro trata da capoeira, talvez a maior tradição cultural deixada pelos escravos para a história do povo brasileiro. Tenta, o autor, identificar a origem da capoeira, e termina chegando a um consenso de que a prática foi uma mistura de ritos vindos da África e adaptados no Rio de Janeiro, no século XIX, o principal centro urbano do Brasil. Mostra o autor que a capoeira era uma fusão de luta e dança ao mesmo tempo, mas que não tinha nenhum interesse em buscar uma melhoria de vida para a população negra, mas sim uma prática cultural criada e incorporada ao universo do escravo, e também do homem livre, inclusive de políticos, Interessante notar que o autor não cita a possibilidade da capoeira ser um jogo, como temos conhecimento nos dias atuais. Os capoeiristas costumam falar que vão jogar capoeira, e não lutar ou dançar capoeira.
A ocupação da Amazônia, espaço compreendido principalmente entre os Estados do Amazonas, Pará, Maranhão e Piauí, foi mais lenta, devido à distância da capital à época, Salvador, e também pela interferência de outros países europeus como a Inglaterra, a Holanda e a França. Os índios também dificultaram esta ocupação por se posicionarem, às vezes contra os portugueses. Além de tudo isso, o Brasil vivia sob o domínio complexo da União Ibérica (1580-1640), formada por Portugal e Espanha. Para fortalecer a administração da colonização, os portugueses criaram um governo no norte do Brasil para facilitar a ação dos governantes e colonizadores. Narra a saga de aventureiros em busca de riquezas e conhecimento científico pela região, mesmo acreditando na imaginação de seus habitantes. Esta prática foi comum para aventureiros vindos, principalmente da Europa, pois o Brasil e a Amazônia despertavam a curiosidade de quem poderia investir nestas viagens dispendiosas, caras e perigosas por um continente praticamente ainda desconhecido. Os Indiana Jones do passado que inspiraram filmes e livros de aventuras.
O papel das Ordens Religiosas, principalmente dos Jesuítas, foi destacado no estudo do Período Colonial. Esta Ordem foi criada como fruto da chamada Reforma Católica pós Reforma Protestante. Tinha o objetivo claro de combater as mudanças promovidas por Lutero no catolicismo romano. E para atingir este objetivo, os jesuítas se concentraram na formação de padres intelectuais e professores para atuarem nas escolas do mundo todo, e mais especificamente na América Latina. No Brasil teve papel fundamental na catequização dos indígenas, pois acreditavam que eles não tinham religião. Mas também influenciaram na formação religiosa dos colonos e fazendeiros, deixando esta herança até os dias de hoje. Os Estados de Minas Gerais e Bahia foram aqueles em que mais atuaram. As Irmandades religiosas foram fundamentais na construção da cultura mineira, pois o governo português não permitia que eclesiásticos frequentassem as minas de ouro. Portanto a Igreja Católica apoiou a criação de várias Ordens Religiosas, que inclusive foram formas de libertar os escravos, pois estes podiam ser comprados por aquelas.
A religião tem grande importância para o povo e os governos no Período Colonial, além do culto católico, havia combinado com este, a adoração dos santos, que se tornaram quase uma religião particular que a Igreja Católica não interferia. Com muita semelhança com a religião do Império Romano, no qual tinha o culto do Imperador e os deuses individuais nas residências. São Sebastião foi o santo mais cultuado no período, tem origem na religião dos reis portugueses. Aqui se mistura com a cultura africana e torna-se ídolo dos escravos adotando um nome da raça negra. Nossa Senhora Aparecida foi uma santa de muita importância na História Religiosa e Política do Brasil. O milagre que deu origem ao seu culto faz parte de um quadro de sofrimento do povo da época. Três pescadores, ao encontrar a imagem, recebem a graça de uma grande pescaria em período pouco propício à pesca. A partir daí seu culto se estende, e chega até o Vaticano que aprova seu culto. A nova classe política republicana utiliza-se de sua popularidade para aproximar a Igreja Católica do novo regime de governo, como era na Monarquia. Nos estudos de santos na História do Brasil, principalmente envolvendo a religiosidade popular, a escrava Anastácia é uma uma criação do imaginário escravista.
Saindo dos santos e santas vamos agora expulsar o demônio, prática que está cheia de histórias e superstições. A autora mostra que a imagem do demônio que conhecemos vem dos artistas do Renascimento, que mostravam a luta do bem contra o mal em imagens. E a prática de exorcismos foi cada vez mais carregada de irregularidades, mesmo que Roma tentasse impedir os excessos, e que os exorcismos não passavam de uma forma alternativa de cura de males que a medicina e os tratamentos naturais não davam conta. E cita casos escabrosos de exorcistas com suas práticas individuais, e muitas vezes violentas e sexuais. Dentro do mundo místico no Brasil, os negros escravos têm papel fundamental. Suas práticas religiosas vindas da África se misturam com o catolicismo romano, mesmo com as proibições e punições pela Inquisição. Nestes cultos não participavam apenas os escravos africanos, mas também pessoas brancas que necessitavam da intervenção do Além para a solução de seus vários problemas. Era uma época difícil, principalmente pelo pouco avanço da Medicina e da existência de seus profissionais, que eram em número reduzido. Nas fazendas os proprietários permitiam a prática do Candomblé, da Umbanda e outros ritos nas senzalas.
A Maçonaria é uma associação de difícil conhecimento, pois se declara secreta, portanto os historiadores não conseguem desvendar seus mistérios, a não ser por algumas declarações de pessoas que dizem conhecer a instituição, e das poucas publicações existentes. No Brasil seu nome está ligado à Independência do Brasil, e até às Conjurações Mineira e Baiana. Mas sempre viveu em constantes conflitos internos e externos, de pessoas e do próprio governo. Os articuladores de nossa Independência, a História diz estarem ligados ao processo de desligamento do governo português, como Pedro I e José Bonifácio, entre os principais. Para encerrar o Capítulo sobre Fé, o autor pesquisa e produz um texto sobre o Espiritismo, que tem sua origem na França, mas que rapidamente se expande pelo mundo, principalmente no Brasil. Sua prática espiritual termina se misturando, e até fazendo parte da Umbanda, que foi considerada a primeira religião totalmente brasileira. No início da República, foi legalmente proibida ao lado dos cultos africanos, mas com Getúlio Vargas, termina virando uma religião normal, principalmente por sua identificação com a Igreja Católica em relação à necessidade de obras de caridade em seu cotidiano. Tenta uma explicação científica através do livro dos Espíritos de Alan Kardec, fato que anima a participação de uma elite mais letrada do Brasil, inclusive de políticos.
A produção do açúcar no Período Colonial marcou nossa sociedade até os dias atuais. A autora faz um estudo sobre como funcionou o sistema de produção açucareira e sua importância para o Brasil e a Europa. Mostra como utilizaram a mão de obra indígena no início do processo produtivo, e depois o negro africano, que também era uma mercadoria na engrenagem do Mercantilismo europeu. O chamado Ciclo do Ouro é tratado de forma bem superficial, destacando mais a parte econômica de sua produção, mas mesmo assim sem nenhum aprofundamento, por exemplo de como a grande quantidade de ouro enviada para Portugal, cerca de 800 toneladas enriqueceu a Inglaterra e não a metrópole portuguesa. Mostra o autor o desenvolvimento que a Colônia alcançou com a mineração, mesmo assim de forma muito sintética.
O ciclo do café foi bem desenvolvido pela autora, inclusive com um texto maior. Mostra suas origens desde a sua chegada ao Brasil, possivelmente teria vindo da Guiana Francesa. Com o tempo torna-se um produto essencial no país para exportação. Analisa as influências sociais da produção do café na formação das famílias enriquecidas com sua produção, fator que vai gerar a expressão "barões do café", pois alguns produtores ricos recebiam título de nobreza do Imperador, geralmente de barão, que era dado a pessoas com grande poder aquisitivo. Mas o grande destaque da produção do café era a mão de obra, que era vinda da África com o tráfico de escravos. Era esta mão de obra que garantia toda a riqueza das famílias, e também provocou sua decadência com a Abolição da Escravidão em 1888. A autora é bem detalhista em seu estudo sobre a produção do café no Brasil, inclusive analisando as influências na moda vinda da Europa, tendo como fonte os estudantes brasileiros que faziam estudos fora do país. Estes estudantes geralmente formavam, mas não trabalhavam, pois sua riqueza era garantida pelo trabalho escravo.
A autora questiona a tradicional expressão "Política do Café com Leite", e utiliza vários argumentos para sua exposição, entre elas, que Minas Gerais e São Paulo nem sempre decidiram os rumos do país apenas com posições dos dois Estados, inclusive cita a influência de outros Estados como o Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro. E as decisões, mesmo dentro dos Estados, não tinham uma unidade, havendo divergências entre os partidos existentes. Mostra também que a expressão certa poderia ser a "Política do Café com Café", pois Minas, junto com o Rio de Janeiro era grande produtor de café, e as decisões partiam mais das decisões políticas do que da produção de leite, ou seja, a política não dependia dos produtores de leite, mas sim das articulações dos partidos em torno das questões nacionais. Revela o papel importante do Exército e do Poder Executivo nas decisões da República Velha. Mostra como as fraudes eleitorais eram dominantes, inclusive destaca a eleição em que o mineiro Afonso Pena conseguiu 97% dos votos, fato só ocorrido com muita fraude. Dentro da política também chamada de "Coronelismo", é tratada no livro, e a ação do Tenentismo, principalmente na década de 1920. Mesmo que os ideais do Movimento Militar dos tenentes tenham um objetivo mais voltado para os interesses da maioria da população, terminam por se associar à Ditadura de Vargas.
A Era Vargas é um período longo e de difícil compreensão pelos historiadores. Foi um tempo de intensas transformações sociais. O Brasil começa a abandonar um perfil agrário para iniciar uma fase de domínio industrial, daí o papel dos trabalhadores se amplia, principalmente em busca de seus direitos. Adquiridos significativos direitos trabalhistas, a classe operária sempre esteve atrelada ao governo e aos patrões, não muito diferente dos dias atuais. Getúlio Vargas foi um ditador, que apesar de suas atitudes autoritárias teve o apoio popular. Os tenentes o apoiaram num primeiro momento, mas depois se afastaram, pois Vargas abandonou suas promessas de campanha. A autora do texto coloca algumas questões que precisam ser compreendidas durante o período, e que até hoje não foram resolvidas. Em resumo, Vargas foi um estrategista político de primeira linha, isto não dá pra negar. Seu governo pôs fim à chamada "República Velha" (1889-1930), mas conservou muito de sua política de fraudes eleitorais, violência e corrupção.
Ainda sobre a Era Vargas, seu antissemitismo é fragrante em sua política de imigração. Pretendia, como a Alemanha Nazista, uma pureza da raça brasileira sem ter a chance de adotar as medidas radicais de Hitler. Até alguns de seus Ministros eram antissemitas. Passou a não aceitar imigrantes judeus no país, mesmo assim muitos judeus chegaram ao Brasil por outros canais, mas Vargas poderia ter evitado a morte de muitos judeus se não tivesse praticado uma política racista de imigração. A Ação Integralista no Brasil faz parte do quadro de governos autoritários e fascistas no mundo, mas não se identifica totalmente com o Nazismo, principalmente na questão da pureza da raça. Foi um partido que recebeu apoio principalmente das colônias italianas e alemãs de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
A seguir, as publicações deslocam o foco das questões políticas, econômicas e ideológicas para as questões mais populares, que geralmente os livros didáticos não trabalham como a alimentação, a prostituição entre todas as classes sociais, inclusive entre os indígenas, a religião oficial e os cultos populares, o adultério, a guerra, etc. Os historiadores entram em detalhes sobre as questões sexuais, mostrando a ação da Inquisição no combate a algumas destas práticas. Analisando sempre o contexto desses fatos, ou seja, revelando uma realidade dentro de uma sociedade em formação. E nos conflitos desde o século XVI destacam o clima belicoso que viveu o Brasil no início de sua formação social. A Bahia foi o espaço inicial de uma guerra em que os índios tomaram parte numa mistura de misticismo com o catolicismo dos jesuítas. A invasão holandesa no Nordeste mostrou a capacidade de nossos soldados no combate ao inimigo, quando 2.000 mil luso-brasileiros venceram 6.000 holandeses. Talvez tivessem a motivação do patriotismo da "nação" brasileira na época.
No período da mineração em Minas Gerais, outro texto é bastante minucioso sobre as relações sociais, econômicas, religiosas e políticas da época. Em uma palavra se vivia um caos social. Portugal ainda não se interessava pela produção de ouro, pois tinha outros interesses econômicos na Europa, portanto nas minas se vivia um aglomerado desorganizado de pessoas buscando seus interesses: índios, negros, mulheres, proprietários de terras. Era uma terra sem lei ou ordem. A escravidão e os quilombos se espalhavam por todo o país, inclusive nas minas, que fazia parte da Capitania de São Paulo. Havia uma relação social dos quilombos com pessoas livres, negros alforriados e proprietários. Geralmente se localizavam nas proximidades dos locais de maior população. Não era como estudamos na escola, locais isolados e comandados apenas pelos negros africanos. Os negros africanos também participaram de movimentos revolucionários em defesa do Brasil, e principalmente buscando sua alforria por sua participação. Tinham outros interesses além da libertação do Brasil do domínio português. Não eram tão ingênuos como pensávamos. Na Guerra da Bahia, conseguem a vitória em 2 de julho de 1823 que se torna a data oficial da Independência do Estado, inclusive sendo feriado estadual. Com maior importância que o 7 de setembro.
No método utilizado pelo autor/organizador do livro, encadeando os textos sem obedecer a Linha de Tempo Tradicional da História, agora passam, os autores, a narrar e analisar as chamadas Revoltas Regenciais, que tiveram como característica principal o envolvimento de pessoas comuns nas lutas reivindicatórias. Tem início com a chamada Revolução Farroupilha, ou dos Farrapos, que tem como consequência principal a formação da identidade do Estado do Rio Grande do Sul como Estado Federativo do Brasil. Depois passam pela Revolução Praieira que é um misto de conflito liderado pelas elites do Nordeste, mas que deixou espaço para a plebe participar, mas no final não fica claro o objetivo principal do conflito, a não ser a luta pelo poder dos primeiros tempos do Segundo Império; depois é estudada a Revolta de Canudos que foi o movimento mais importante do final do século XIX no Brasil, onde ainda se questiona a volta da Monarquia para o governo do Brasil. O livro Os Sertões de Euclides da Cunha foi considerado a História de Canudos até fins da década de 1950, quando surge uma nova vertente de análise voltada mais sobre as questões do latifúndio no interior do Brasil.
Sobre a Abolição da Escravatura, o livro é bem detalhista principalmente em relação a ação dos chamados Quilombos. Existiam vários Quilombos, sendo muitos localizados bem próximos às cidades e com a participação de intelectuais, jornalistas e políticos, inclusive a Princesa Isabel terminou adotando a causa abolicionista, chegando ao ponto de proteger escravos em seu palácio, afinal seu pai, D. Pedro II, estava fora do país. Aconteceram várias críticas sobre a presença da princesa no movimento, inclusive Rui Barbosa via sua participação como puramente política, mas foi Rui Barbosa o primeiro intelectual a admitir que a Abolição da Escravidão não foi uma dádiva da Princesa Isabel, mas o resultado da resistência e luta dos escravos. Interessante notar como a camélia, uma flor, era o símbolo do abolicionismo, inclusive servindo como uma espécie de senha para identificar um abolicionista. Quilombos que protegiam os escravos e criavam uma espécie de comunidade negra, distante das cidades, não foram muitos, e o que mais se destacou foi Palmares.
Começam, os autores a estudarem as revoltas ocorridas no século XX. Na Revolta da Vacina aprendemos e ensinamos que sua motivação foi a invasão da privacidade da população, sem nenhuma consulta prévia aos moradores. Mas o autor mostra que houve muitas revoltas dentro da chamada Revolta da Vacina, inclusive o envolvimento de líderes socialistas nas invasões e liderança do movimento, e até de militares insatisfeitos com a situação em que viviam. Na revolta da Chibata é realçado o lado violento do conflito, principalmente por parte do governo. Foi uma revolta dos marinheiros contra os maus-tratos recebidos da oficialidade, como se fosse a permanência da escravidão negra, e entre os marinheiros tinham muitos negros e pessoas simples. O governo foi extremamente violento na repressão, inclusive matando e jogando no mar vários marinheiros. Logo o mito do brasileiro pacífico foi por água a baixo.
Agora os autores passam a narrar eventos fora do Brasil, mesmo envolvendo os brasileiros, como a Guerra do Paraguai. Sobre esta mostram as visões existentes sobre o conflito, ou seja, suas causas. Até a década de 1970 existia a opinião (inclusive li um livro famoso que defendia esta ideia quando fiz Faculdade) de que sua causa foi o Imperialismo inglês, pois o Paraguai fazia concorrência com os produtos ingleses na América do Sul, fato que é negado pelos historiadores a partir da década de 1980, pois afirmam que praticamente não existia indústria no país, mas o domínio de atividades agrárias. Consequentemente, as causas mudam, ou seja, passam a fazer parte do processo de formação dos Estados Nacionais na América do Sul. Durante a II Guerra Mundial mandou os pracinhas (FEB) para participarem do conflito, certamente com o objetivo de resgatar um pouco a falta de credibilidade de Getúlio Vargas diante de sua longa ditadura. Fizeram bonito no conflito ao enfrentarem o maior exército do mundo que era o alemão, apesar das parcas condições materiais e de saúde de nossos soldados. Importante ressaltar que o Brasil foi o único país da América do Sul a enviar soldados para lutarem na Europa, e também por possuir negros no exército, fato que não diminuiu a discriminação no campo de batalha e quando voltaram ao nosso país.
O livro agora volta-se para alguns personagens da nossa história como Maurício de Nassau e Chica da Silva. Sobre Nassau não acrescenta muita coisa, pois sua fama de bom gestor e de seu gosto pelas artes já são conhecidos pela história tradicional. Mas entra em detalhes pouco conhecidos como a existência de vários representantes de outras nacionalidades europeias no Recife, inclusive de judeus. Soube conciliar as várias crenças e interesses no território administrado. Fez uma grande obra administrativa na cidade, inclusive participando de sua construção, Trouxe naturalistas europeus para registrarem nossa belezas naturais, entre outras realizações. Sobre Chica da Silva o livro apresenta uma mulher determinada que enfrentou com coragem e sabedoria os desafios de seu tempo. Não apenas uma mulher sexualmente atraente como temos visto no cinema, livros e imprensa. Viveu intensamente sua vida, mesmo sendo negra, portanto marginalizada. José Bonifácio é revelado como um homem de inteligência rara entre intelectuais, e não só o político que estudamos nos livros didáticos. Atuou em várias áreas, inclusive nas áreas das ciências exatas como a Matemática e as Ciências Naturais, além de enveredar pela Filosofia e Política. Maria Quitéria é uma heroína baiana muito bem trabalhada no texto, mostrando detalhes de sua participação na defesa da Independência do Brasil no combate aos portugueses como soltado, mesmo sendo do sexo feminino. E outras lideranças femininas também são tratadas com Maria Filipa e Ana Angélica, todas da Bahia.
Sobre as lideranças históricas brasileiras masculinas, o General Osório é muito elogiado por sua bravura e seu compromisso de soldado, além de seu bom humor. Inclusive gostava de poesia para amenizar sua vida agitada de estar sempre preparado para conflitos. Recebe um pedido de promoção em forma de poesia, e o concede, mas orienta o solicitante para nunca mais fazê-lo dessa forma. Foi muito amigo de Caxias até aparecerem algumas divergências durante a Guerra do Paraguai (1864-1870). É considerado o Patrono da Cavalaria. E Caxias o patrono do Exército. Outro grande brasileiro é tratado no livro: o Barão do Rio Branco. É elogiado por sua capacidade de resolver questões internacionais sem nunca ter usado o artifício da guerra, mesmo em situações polêmicas no Acre. É considerado o maior negociador de questões internacionais do mundo. O Marechal Rondon é outro exemplo de grande líder militar e humanista do Brasil, pois foi um grande defensor da cultura indígena em nosso país. Foi Positivista e Militar, mas sempre voltado para os interesses humanitários do cidadão brasileiro. Era contrário a qualquer tipo de violência contra a pessoa humana, principalmente sua morte.
Os historiadores passam a estudar a vida dos poetas e literatos, começando com Gregório de Matos, famoso por suas críticas ferrenhas aos governos da Bahia. Interessante notar que o poeta nunca publicou uma linha de suas poesias e escritos. Outras pessoas e amigos juntaram suas falas e transformaram em panfletos e livros. É chamado de "Boca do Inferno" pela indignação manifestada em suas produções ao criticar os governantes baianos. Nasceu em Recife e morreu em Salvador. Sobre Machado de Assis são analisadas suas crônicas, e não seus romances, o que me admirou, pois ficou famoso pelos romances. E suas crônicas tratam principalmente de questões econômicas; nova surpresa, pois nunca vi Machado de Assis preocupado com economia e política. Mas é totalmente lúcido nesta nova faceta de sua obra. Lima Barreto é estudado em seu lado jornalístico, principalmente por suas crônicas políticas, e até em defesa dos direitos das mulheres. É um defensor dos direitos sociais de todos os cidadãos. Coisa nova pra mim. Seu lado do romance é muito mais conhecido e valorizado. A Arte Moderna que teve origem em 1922 é o foco do próximo estudo, revelando o objetivo principal do Movimento que foi a criação de uma identidade da sociedade brasileira através da produção literária inicial de Oswald de Andrade, e tendo como objeto de pesquisa seu livro inicial Pau-Brasil. Uma arte engajada na cultura popular brasileira.
Sobre a MPB (Música Popular Brasileira), o autor foca em Noel Rosa, Chico Buarque e alguns nomes pouco conhecidos. Cita em meio a estes Vinicius de Moraes e o Movimento da Tropicália. Não entra em detalhes sobre o que é música popular brasileira. Vê mais o lado artístico e pessoal de Noel, e a poesia e política de Chico e de seu pai Sérgio Buarque de Holanda. Mostra estes artistas e escritores/historiadores como aventureiros na busca de nossa identidade cultural e social, ainda hoje indefinida, principalmente pela extensão territorial do país e suas várias diversidades em todas as áreas. Parece que vivemos em um aglomerado de "países" que chamamos Brasil. Como explicar esta complexidade em algum estudo específico. Fica muito difícil. Cita o autor que Gilberto Freire, Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda foram aqueles que chegaram mais perto de uma definição de nação brasileira, e Chico Buarque por suas variadas produções, inclusive em romances e teatro, além é claro, da música, que é uma invasora da identidade da mulher brasileira como ninguém fez ou tentou.
No processo de construção do livro, o autor agora trata de política com um mito de nossa História, Getúlio Vargas. Confirma que foi democrata e ditador em seu longo período de governo, mas uma coisa que não tinha visto ninguém afirmar é que sua morte retardou por 10 anos o golpe civil-militar de 1964. No mais são informações dominantes em nossos livros didáticos, inclusive uma certa calma na política brasileira após a sua morte, talvez pelas manifestações populares em quase todas as cidade do país. Juscelino Kubitschek é tratado no texto como o típico político mineiro - tradicional e conciliador. Mas este tradicionalismo não o impediu que fizesse o governo mais progressista do Brasil, talvez pela situação que o país atravessava com o crescimento da classe operária. Não teve medo de fazer grandes investimentos, mesmo sabendo que provocaria grandes dívidas ao país e o aumento da inflação. Foi um Presidente ousado, participativa e presente no meio do povo. A ele devemos a construção monumental de Brasília, com sua estratégia de centralização administrativa e uma aproximação com as fronteiras a oeste do Brasil.
O estudo sobre Tiradentes me surpreendeu ao mostrar uma visão diferente de nosso herói da Inconfidência que trabalhamos nos livros didáticos de História. A última imagem que tinha era a de que Tiradentes assumiu a culpa por tudo, ou foi levado a assumir porque era o menos informado do grupo, e além de ser o mais pobre. Coisas que o texto contradiz na totalidade. Tiradentes era filho de um português que era fazendeiro e possuía escravos. Quando o perdeu foi morar com um parente que era dentista, já crescido foi comerciante e militar, além de possuir uma excelente facilidade de comunicação, chegando a ser comparado aos padres da época que tinham muito poder de convencimento em suas celebrações. Enfim, o texto resgata um novo Tiradentes pra quem estudou a Inconfidência Mineira no século passado. Sobre o Almirante Negro da Revolta da Chibata, percebemos pelo texto, que seu papel não foi tão preponderante no comando da revolta, pois tinha uma boa relação com os marinheiros e com seus comandantes. Foi preso, mas não foi o líder da revolta, o que chama a atenção no estudo é seu registro sobre a revolta utilizando uma arte aprendida em sua função de marinheiro, pois nunca foi Almirante. Mas foi de uma humanidade extrema.
O livro termina com um bom estudo sobre a vida e ação de Chico Mendes e pequenas biografias dos historiadores que tornaram possível a formação de um excelente livro de História do Brasil, principalmente por suas novidades pesquisadas.
domingo, 11 de setembro de 2022
Livro Mulheres e Imprensa no século XIX: Projetos Feministas no Rio de Janeiro e em Buenos Aires - Bárbara Figueiredo Souto
Livro Mulheres e imprensa no século XIX: Projetos Feministas no Rio de Janeiro e em Buenos Aires
Bárbara Figueiredo Souto
Introdução
Este livro é o resultado da Tese de Doutorado da autora transformado em um texto mais acessível a um número maior de leitores. Mostra a atuação de mulheres na imprensa brasileira e argentina, como escritoras e proprietárias de jornais. Bárbara vê nestas mulheres uma pauta feminista na imprensa muito antes de emergir o Movimento Feminista propriamente dito no século XX - o século do feminismo. Faz uma História Comparada e transnacional, ou seja, um estudo do trabalho do jornalismo feminino no Brasil e na Argentina em defesa das questões urgentes da mulher diante de uma sociedade patriarcal dominante. Teoriza sobre as críticas e opiniões de historiadores(as) sobre a chamada História Comparada. Define o período estudado na pesquisa sobre as jornalistas femininas, Juana Paula Manso, Violante Atabalipa Ximenes de Bivar e Vellasco e Gervázia Nunezia Pires dos Santos Neves, e delas faz uma pequena biografia. Analisa suas produções entre 1852 e 1855. Faz também uma comparação da situação histórica do Brasil e da Argentina no período, aliás muito parecidas em questões de desenvolvimento. Realça a pouca identificação do Brasil com os países da América Latina, e uma predominância europeia nessa relação. Mostra como 1852, na Argentina, foi o ambiente ideal para a produção jornalística, isto porque terminava um governo autoritário que controlava a imprensa, e iniciava um governo que restaurou a liberdade de expressão em todo o país. E Juana Paula Manso, terminou criando os jornais feministas no Brasil, em 1852 onde estava exilada, e em 1854 na Argentina depois de sua volta do Brasil. Discute a questão se as jornalistas eram consideradas intelectuais no século XIX, período em que a mulher tinha pouco acesso à cultura escolar. E para isto disserta sobre a questão do "ser intelectual", revelando que a intelectualidade de uma pessoa se fazia, em linhas gerais, pelo seu conhecimento, e por sua inserção no mundo na presença da vida pública e participante. Volta ao Caso Dreyfus na França onde se reúnem os "intelectuais" para a decisão jurídica do militar acusado de traição. Constata que as feministas em estudo eram intelectuais nos dois sentidos, ou seja, pelo seu conhecimento e por sua participação social. Sua decisão é comprovada por ampla bibliografia pesquisada.
Desenvolvimento da Pesquisa
A autora começa o livro mostrando como as publicações sobre as mulheres ou o feminismo, tanto no século XIX como no início do século XX na imprensa eram feitas através de pesquisa nos grandes órgãos jornalísticos, omitindo as redações em pequenos periódicos, fato ocorrido tanto no Brasil como na Argentina. Sendo que as mulheres publicavam, geralmente para um público menor, e em jornais de pequena circulação, de propriedade feminina ou não. Só a partir da segunda metade do século XX esta realidade começa a se modificar, Analisa a existência de um conceito único de feminismo ou a existência de vários feminismos, dependendo de cada realidade social como a Europa, Estados Unidos e a América Latina, e dentro desta linha de pensamento também questiona a existência das "Ondas" de feminismo no mundo. Defende a ideia de vários feminismos.
A Imprensa e a Educação são pesquisadas pela autora no Brasil e Argentina desde o Período Colonial de forma contextualizada, ou seja, revelando os entraves e evoluções ocorridos em ambas as áreas dentro de um sistema colonialista europeu, no caso um domínio exercido pelos países da Península Ibérica - Portugal e Espanha. Mesmo que na América Espanhola não tenha tido um controle sobre a publicação de jornais no início do domínio sobre os povos colonizados, a imprensa argentina só foi ter uma evolução praticamente na mesma época que no Brasil, ou seja, a partir de 1800; pois os portugueses impediam as publicações na colônia e só com a Vinda da Família Real (1808), implantaram a Imprensa Régia, que deu vazão para outras publicações. A Educação também não teve desenvolvimento satisfatório, pois os governos não se interessavam em aplicar investimentos no setor, daí surgirem escolas particulares mais que públicas em determinado período. No Brasil só a partir de 1827 houve maior investimento na Educação tanto para homens como para mulheres. Conforme a autora: "Observei que o panorama da educação feminina no Brasil possuía grande comunicação com a experiência argentina.(...)". Fato comprovado pela falta de financiamento da educação, principalmente, entre outros fatores.
A manutenção de qualquer jornal ou revista depende de financiamentos, seja de empresas, o governo ou assinantes. Este é um tema tratado no livro pela autora, mostrando a vida árdua para a permanência de circulação dos jornais feministas na Argentina e no Rio de Janeiro. Constata que o maior investimento partia da iniciativa dos governos, pois estes precisavam divulgar suas decisões na imprensa. Analisa também o formato dos jornais em termos de imagens, textos e diagramação. Além das diferenças entre as propostas dos jornais, das revistas e dos livros. Identifica como ocorre a produção dos mesmos, sendo que os jornais têm uma informação mais imediata, apesar de muitas vezes, ser crítica, como eram o jornais feministas no início. As revistas oferecem uma visão do presente, sem uma preocupação com a formação do leitor para o futuro, e o livro é mais elaborado, e portanto tem a possibilidade de uma revisão futura. A autora entra em detalhes sobre a composição dos jornais feministas que analisa; suas colunas, páginas, seus espaços, sua capa, logotipo, elementos compostos para atingir um público alvo - as senhoras. Expõe gráficos e imagens das capas dos jornais para análises e comparações.
Os projetos de Juana Manso desenvolvidos em suas publicações são amplamente estudados pela autora, principalmente aqueles voltados para a Educação. Defende uma escola com maior participação dos(as) alunos(as) no processo ensino-aprendizagem. Utiliza métodos de outros educadores como Pestalozzi. Em sua viagem aos Estados Unidos com o marido visita estabelecimentos de ensino e prisões. Encanta-se com o sistema prisional americano. Juana Manso vê a Educação como instrumento de transformação social, e nela inclui crianças, homens e mulheres. O Estado deve ter participação efetiva no financiamento educacional. Na Argentina, a educadora publica um livro didático da História da região platina para ser usado pelos alunos, e convida o governo para investir na publicação e utilização do material nas escolas primárias. Suas ideias educacionais têm origem, principalmente no pensamento dos iluministas franceses e ingleses, como Rousseau, Voltaire e John Locke, entre outros.
A vida escolar da feminista é narrada pela autora desde a mais tenra idade. Juana Manso frequenta a escola de primeiras letras e depois passa a ser autodidata, inclusive fazendo traduções de livros estrangeiros. Publica romances, sempre com o foco de defesa da emancipação e educação feminina. Participou de várias atividades nas escolas, inclusive sendo Diretora de Escola e professora. Todo seu trabalho foi voltado para a formação integral da mulher, e fazendo críticas diante da postura masculina diante da situação feminina. Tentou de todas as formas a ampliação da participação da mulher na sociedade, e não só no espaço limitado da família. Até no teatro, Juana Manso teve participação como autora e atriz. A questão da Educação da Mulher é fundamental em seu projeto de trabalho. Produz romances, defende a abolição da escravidão no Brasil, a emancipação das mulheres e dos indígenas através de suas obras. É uma educadora permanente, e a imprensa é seu espaço maior de suas lutas. Foi professora, escritora, jornalista, mas acima de tudo foi feminista.
Joana Manso obteve muito apoio pela publicação de seus jornais, especialmente no Brasil, através de suas leitoras e colegas de trabalho, mas teve também, durante toda sua vida, oposição de pessoas contrárias a suas ideias, e até ao seu perfil de mulher fora dos padrões estéticos e ideológicos da época, pois não era recatada, delicada, bela e submissa, e ainda era gorda, feia, pobre e protestante. Foi agredida fisicamente enquanto fazia palestra em defesa de suas ideias, além dos ataques de críticos na imprensa. Muitos estudos sobre Joana Manso são citados e analisados pela autora no livro. Questiona algumas ideias sobre o papel social e histórico da feminista nesses estudos, tanto de pesquisadores brasileiros quanto estrangeiros, mas não deixa de ressaltar que esses trabalhos constituem-se em contribuições intelectuais para a valorização e resgate da memória da grande personagem que deixou suas marcas em defesa da mulher, utilizando principalmente a imprensa, em três países: Argentina, Uruguai e Brasil.
No final do livro, a autora analisa com mais detalhes os projetos dos jornais feministas do final do século XIX na Argentina e no Brasil, e de suas autoras e colaboradoras. Explicita, entre outras conclusões, que a imprensa era o espaço de criação literária, não só para as mulheres, mas para os homens que tinham vocação para a escrita, além de ser o espaço de formação da cidadania, como era proposto pelas feministas em todas as suas publicações. Como Juana Manso, que tinha como meta principal a educação moral e intelectual das mulheres, em linhas gerais. Destaca, a autora, o papel das colaboradoras do Jornal das Senhoras, no Rio de Janeiro, que pretendiam dar sequência ao trabalho de sua criadora, apesar, que de forma estratégica, me parece, demonstrassem sua pouca capacidade para o cargo, ou talvez, para não, de forma ostensiva, competir com os homens em seu domínio, afinal a sociedade patriarcal não "permitia" este papel de escritores(as) para as mulheres, ainda. Um discurso moderado parece ser, na visão da autora, elemento importante para conquistar as leitoras. Destaca também que quanto maior o número de colaboradoras, mais tempo o periódico duraria, o que confirma o maior tempo de circulação do Jornal das Senhoras no Rio de Janeiro, que conseguiu circular por quatro anos. Juana Manso com a separação do marido passa a dedicar maior tempo de sua vida como mãe, como era comum em sua época.
Em uma breve tentativa de conclusão percebi que os jornais criados pelas feministas de meados do século XIX foram espaços privilegiados de crítica social e defesa de direitos iguais entre homens e mulheres, além da insistente defesa da Educação feminina como instrumento imprescindível para a garantia desses direitos. Em sua crítica, entre muitas outras, opinavam até sobre a moda feminina. Achavam que a moda europeia, e principalmente a francesa, precisava de adaptações para nossa realidade tropical. Também utilizaram publicações masculinas que defendiam os direitos das mulheres, afinal não queriam tomar o poder dos homens, mas garantir a todas as mulheres os mesmos direitos. Além dos direitos legais defendiam a igualdade quanto à capacidade intelectual igualada à dos homens. Não podiam ser inferiores aos homens, pois como eram capazes de educar seus filhos e dominar o espaço do Magistério? A suposta inferioridade feminina só podia ser justificada com a aplicação de uma sutil ideologia de poder, que as jornalistas tentaram desconstruir/revelar com suas publicações.
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