segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

O Livro Negro do Comunismo - Vários Historiadores

 


Introdução
Só pela leitura dos textos das capas e orelhas do livro já deixa claro o sonho desfeito e o terror implantado pela Revolução de 1917. Foram mais ou menos 100 milhões de mortos em 7 décadas de governo soviético na União Soviética e em outros países como a China e Cuba, por exemplo. É estarrecedor como pôde ocorrer tamanha violência contra povos de um mesmo país, depois de promessas de humanidade e igualdade. Hoje os partidos comunistas nos governos são mais sutis nos expurgos, praticam um ostracismo grego com os opositores. Castro Alves falando do sofrimento dos escravos, seria mais enfático com o regime comunista soviético:      

                                                         "Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus...
Ò mar! por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! Noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

    Quem são estes desgraçados,
Que não encontram em vós,
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?"
Castro Alves (O Navio Negreiro)

Na Apresentação, os autores preparam os leitores para as atrocidades praticadas pelos comunistas, inclusive com depoimento do historiador e ex-comunista, Eric Hobsbawm afirmando aos que dizem serem os números de mortes exagerados, afirmando: "Mesmo que as cifras caíssem pela metade, seriam moralmente inaceitáveis." (Apresentação, VI).

No texto seguinte, questiona-se como os chamados comunistas atuais sabem dos crimes praticados pelo regime ao longo de sua história e continuam a defendê-lo. A explicação mais plausível é que os crimes praticados faziam parte do caminho que deveria ser percorrido para se chegar ao Socialismo. Vejam textualmente: "O que aconteceu? Havíamos perdido a razão ou somos traidores do comunismo? A verdade é que todos nós, inclusive os que estavam mais próximos de Stalin, fizemos dos crimes o contrário do que eles realmente eram. Nós os consideramos como uma importante contribuição para a vitória do socialismo." (pág.25). E o autor aponta a solução: "Os comunistas de minha geração aceitaram a autoridade de Stalin. Eles aprovaram seus crimes. Isso vale não somente para os comunistas soviéticos, mas também para aqueles do mundo inteiro, e essa nódoa nos marca individual e coletivamente. Só podemos apagá-la fazendo com que isso nunca mais se reproduza." (pág. 24-5)

No mesmo texto dos crimes do comunismo, são colocadas questões muito importantes: 1. Mesmo admitindo os crimes comunistas nos governos de Lênin e Stalin, os atuais partidos comunistas continuam defendendo suas ideias: 2. o totalitarismo tem seu poder devido, principalmente sobre as pessoas que têm medo da liberdade e da reponsabilidade, pois transferem todas as suas decisões para os líderes do partido; 3. o comunismo matou cerca de 100 milhões de pessoas, incluindo a União Soviética e os outros países comunistas, enquanto o regime nazista da Alemanha, eliminou 25 milhões de seres humanos; 4. Os campos de concentração nazistas seguiram os modelos comunistas do governo de Lênin, conforme depoimento de um comandante comunista; 5. O Nazismo ficou famoso após a Segunda Guerra Mundial por seus atos de terror, inclusive seus generais ficaram conhecidos do público, mas os comunistas mentiam sobre a prática do terror em seus territórios, fator que levou até ao engano de países como a França e os Estados Unidos.

No final do texto, vários elementos são analisados sobre o segredo das ações criminosas dos comunistas desde Lênin. Um dos fatores que favoreceu essa ocultação das atrocidades foi a violência do regime nazista, tornando o comunismo um antifascismo na opinião pública, inclusive no julgamento dos crimes do nazismo alemão, Stalin estava presente. Outro elemento importante foram as denúncias de vítimas que escaparam aos campos de concentração comunista, desde a década de 1920 a 1950, mas que foram pouco ouvidas, além das obras publicadas denunciando estas violências, fatos que só foram considerados depois que o próprio sistema os admitiu. Mas o próprio método de Lênin: violência, crime, terror, já revelavam a origem da chamada "revolução", ou seja, Lênin colocou em prática e Stalin os sistematizou com seus seguidores (pág. 16).  E este método foi anterior ao nazismo. Apenas Fidel Castro não assumiu os crimes praticados. O Relatório Secreto de Kruschev foi fundamental para abrir o espaço de pesquisa sobre a violência praticada por Stalin. Outra questão colocada é sobre os historiadores que têm a missão de ser os porta-vozes dos oprimidos, mas que certamente são impedidos, muitas vezes, por questões de informações complexas. Encerrando, é questionado sobre o que levou os comunistas a eliminar toda a oposição para a implantação do regime socialista, e a promessa de resposta no fim do livro.

Depois dos relatos e análises dos crimes do comunismo começam a ser publicados textos relativos aos fatores que levaram à eclosão da Revolução de 1917, e as posições da historiografia a respeito do evento, principalmente depois da queda do regime. Nesta linha historiográfica surgem análises de vários matizes e ideologias. O certo é que a eclosão do comunismo soviético foi o resultado consequente de um caos social na Rússia e de um desgoverno czarista que vinha se definhando desde o início do século XX. Fica claro também, que Lênin nunca pensou em implantar uma democracia no país, mas sim uma ditadura do proletariado como previu Marx, mas que terminou virando uma ditadura de uma minoria poderosa sobre a população, e com a prática de barbaridades inimagináveis. Para o controle da população trabalhadora, e principalmente dos proprietários rurais grandes, médios e pequenos, o governo criou vários órgãos de controle, numa miscelânea de ideologias e interesses. O certo é que tiveram muita oposição quando os comunistas passaram a praticar o oposto do que prometeram, daí o acirramento de uma greve civil. Até Trotski era favorável à guerra civil para a implantação do comunismo. E nas eleições o governo intervia quando percebia sua derrota, acabando com o pleito. Logo democracia nunca existiu no comunismo desde sua origem, mas sim uma ditadura permanente do "proletariado".

Sobre O Terror Vermelho, principalmente no final de 2018, basta citar o texto do livro (págs. 98-9):



Foi um período específico de matanças de "opositores", sem contar os tempos que se seguiram em aniquilar oposições. Será que não deu uma certa saudade do Regime da nobreza czarista? É interessante notar como uma guerra civil em que compatriotas se matam por um ideal nunca especificado, mas ficando claro que a matança, era na verdade, por pura sobrevivência, tanto entre os Vermelhos (Bolcheviques) e Brancos (Monarquistas). Ninguém nunca especificou, o que na realidade defendiam, ou seja, que ideal humanitário, filosófico, político ou religioso defendiam. A violência foi tanta que os próprios dirigentes passaram a denominar o conflito de "Guerra Suja" e não de Guerra Civil. Parece que o racionalismo desapareceu das mentes humanas naquele curto período entre 1918-1920. Foram tantas e violentas mortes que os números perdem o sentido. Realça também o tamanho da oposição que os Bolcheviques enfrentaram, além do uso da violência de ambas as partes, principalmente porque a questão fundamental da luta era a fome provocada pelo controle do governo da produção camponesa, sendo, contraditoriamente, o campesinato o principal defensor da revolução em 1917. E o governo sempre defendendo que estavam impedindo o fortalecimento da Revolução Proletária. E para justificar que um mundo novo esta nascendo, e para isto tudo era permitido, inclusive um número incalculável de estupros, o Editorial do primeiro número do Krasnyi Metch (O Gládio Vermelho), jornal da Tcheka de Kiev: "(...) Sangue? Que o sangue jorre aos montes! Somente o sangue pode colorir para sempre a bandeira negra da burguesia pirata como um estandarte vermelho, bandeira da Revolução." Foi um festival de mentiras como vivemos hoje no mundo e no Brasil, apesar de toda a tecnologia da informação atual.

Um outro fator importante que eu nunca tinha visto falar ou em produções históricas é o grande número de suicídios de camponeses por falta de alimentos, pois o governo pegava 2/3 de sua produção. E sobre uma breve história de Lênin, que foi advogado, ainda novo, em 1891, e já defendia a fome da população para incrementar a industrialização, que produziria o Socialismo, que em sua opinião seria a fase seguinte ao Capitalismo. Durante um período de extrema fome, ainda no período de Lênin, alguns intelectuais buscam ajuda internacional, inclusive da Cruz Vermelha e dos Estados Unidos, mas não durou muito, um pouco mais de 5 semanas, pois achavam que essa atitude tinha outras intenções de dominação externa, pois o Comunismo vive numa permanente Teoria da Conspiração. Estes intelectuais logo após a ajuda foram expulsos do país. Lênin sempre gostou dos líderes mais radicais e violentos de seu governo. Em mais uma de suas atitudes autoritárias, expulsa todos os intelectuais do país como escritores, professores, e até profissionais de nível técnico, como engenheiros, e exigia que assinassem um documento em que prometiam nunca mais voltar ao país, do contrário seriam fuzilados. Mas com a morte de Lênin, em 1924, sendo que desde 1923 ele já não exercia o poder devido a três derrames cerebrais, a União Soviética passa por um período de tréguas nos assassinatos de oponentes, e o país passa a ter uma vida quase normal, pois diminuem as perseguições aos opositores ao regime, e o comércio, a indústria e a agricultura normalizam-se. Este período durou até a escolha do sucessor de Lênin, em 1927. Trotsky passa a ser perseguido depois de 1927, passando a ser opositor ao Comunismo. Foi expulso da União Soviética junto com seu grupo, mas o autor não explica o motivo de sua mudança de posição, sendo que era um líder no Partido Bolchevique e defensor dos assassinatos de camponeses opositores ao regime.

O que dá para transparecer na transição após a morte de Lênin, é que ele fez a maior parte da "limpeza" da oposição ao novo regime, e Stalin implantou mecanismos para a organização da grande nação, como a criação de cooperativas de agricultores, e da coletivização da agricultura, sem passar pelas leis de mercado; mesmo continuando o combate aos opositores com grande violência, prisões, expulsões do país e assassinatos. A Coletivização dos campos foi feita de forma violenta e sem o apoio dos camponeses, por isso, a repressão foi violenta, com a expulsão dos agricultores de suas terras e enviados para terras distantes, e sem condições mínimas de sobrevivência, chegando ao caso do governo matar milhares de pessoas de fome de forma proposital, além de em alguns lugares, os exilados chegarem ao ato do canibalismo. Entre 1932-1933, período chamado de a grande fome, morreram mais de 6 milhões de pessoas, incluindo crianças e idosos, com a utilização dos métodos mais primitivos e violentos. A fome foi utilizada como arma para combater os camponeses, pois estes resistiram com suas formas mais específicas, como o distanciamento de seus contingentes de defesa. O governo então passou a recolher toda a produção do campo, levando os agricultores a uma fome generalizada. Mesmo com denúncias internacionais, o governo negava esta prática, insistindo que era o combate aos seus opositores. Canibalismo, abandono de famintos idosos, crianças, mulheres, uso de órgãos dos sobreviventes para fazer alimentos - um inferno dantesco! Tudo revelado com ampla documentação, inclusive com carta de Stalin dando respostas às práticas genocidas. Às visitas estrangeiras mostravam as plantações como se fossem um jardim, escondendo o "lado negro" da violência sem limites.

Depois de um combate sistemático contra os camponeses, e uma parcial normalização de suas atividades, com a criação de cooperativas para um melhor controle da produção, o governo parte para as outras classes, principalmente nas cidades, passando a investigar as várias "especialidades" de trabalhadores, como engenheiros, administradores, profissionais liberais, religiosos, inclusive fechando  e destruindo Igrejas, cientistas, professores, jornalistas, escritores, teatrólogos, e até pessoas do alto comando do governo. Nestas novas classes investigadas criam leis para punição dos suspeitos, chegando ao ponto de um alto funcionário declarar que puniram pessoas totalmente inocentes, mas já estavam "mortas", como afirmou em seu relatório. É interessante notar como depois de mais de vinte anos após a Revolução de 1917, o governo ainda continuava a praticar expurgos violentos contra possíveis oposições aos regime. Como administrar um país enorme em constante combate aos opositores, e de forma violenta? O período chamado de O Grande Terror (1936-1938), foi o tempo mais violento da Revolução Russa, pois existiam até cotas de prisões, quase sempre ampliadas; expulsões do país e execuções, sendo Stalin o responsável direto das decisões, mesmo que tenha nomeado outras pessoas para o comando. Até pessoas simples e honestas eram condenadas, sem julgamento, e nos raros casos de julgamento, estes eram feitos sem a presença do réu, ou seja, a decisão já estava tomada, para o cumprimento das cotas. Tiveram três observações internacionais da tragédia, mas não levaram a nenhuma decisão, pois o governo manipulava as informações. O objetivo principal do Grande Terror, era, conforme um dirigente do governo, criar uma burocracia civil e militar formada por jovens quadros que "aceitarão qualquer tarefa que lhes for designada pelo Camarada Stalin" (pág. 242)

Sobre os Campos de Concentração, os famosos na História, denominados Gulag, o autor faz uma longa descrição, inclusive com fotografias arrepiantes das torturas praticadas e os métodos de trabalhos forçados exigidos dos prisioneiros. Nos Gulag ficavam pessoas de todos os níveis sociais, inclusive de populações de países que formavam a União Soviética, principalmente da Ucrânia, onde houve intensa exploração de sua população, talvez daí a existência de conflitos entre a Rússia e a Ucrânia até os dias de hoje. Os agentes russos visitavam até as escolas para verificar quais eram os alunos mais inteligentes, pois estes representavam um perigo para o regime, por isso eram presos preventivamente. Após o início da II Guerra Mundial, os bolcheviques exploram a mão de obra para os campos de concentração, principalmente da Polônia, local onde primeiro a Alemanha atacou. Os russos assassinaram 45 oficiais poloneses, sendo os corpos encontrados ainda durante a II Guerra, mas afirmaram que foram os alemães que realizaram tal massacre, mas em 1992, a Rússia assumiu os crimes. Os presos trabalhavam também em obras fora das fábricas dos campos de concentração, principalmente em obras faraônicas de construção de canais, que futuramente se tornaram inúteis. Os números de mortes e prisioneiros são amplamente divulgados, mesmo sabendo da existência de fontes ainda não divulgadas sobre os mesmos. Durante a Segunda Grande Guerra Mundial, a União Soviética passou a deportar alemães residentes em seus territórios para áreas de trabalho forçado como a Sibéria, alegando que eram traidores e espiões contrários ao governo; mas não só alemães, mas povos que pertenciam à União Soviética, principalmente da Ucrânia, além de gregos, armênios e outros. Sempre com a violência e a poderosa arma da fome. Enquanto isso, os soldados russos iam morrendo pelos campos da Europa. De 1941 a 1944 houve uma grande perseguição aos "inimigos do regime", mesmo no auge da Grande Guerra, mas o mundo não ficava sabendo dessas ações, e após a guerra a União Soviética foi elogiada pelos Países Aliados, pois foi a nação que mais perdeu soldados no conflito. E muitos países passaram a seguir o modelo de seu regime, porque conheciam apenas um lado de sua realidade. Mas o Socialismo teórico e Revolução nunca existiram na União Soviética, e nem no mundo. A Imprensa russa fez seu papel de divulgar um Paraíso que nunca aconteceu.

Mesmo depois da Segunda Guerra Mundial, o União Soviética não mudou sua postura social e política, continuaram a perseguir opositores e supostos inimigos, e limitar a liberdade (se é que um dia houve), a alimentação e os salários dos trabalhadores. As prisões e assassinatos continuaram como no início do regime, e com a proximidade da morte de Stalin, e sua paranoia, provocou a volta do antigo Grande Terror.
















sábado, 9 de dezembro de 2023

Imprensa em tempo de guerra: Jornal O Jequitinhonha e a Guerra do Paraguai - Maria de Lourdes Dias Reis

 

Imprensa em tempo de guerra: Jornal O Jequitinhonha e a Guerra do Paraguai

Maria de Lourdes Dias Reis

Introdução

O tema escolhido pela historiadora faz parte de suas áreas de especialização que são a História e o Jornalismo. Foi muito feliz na escolha do tema, pois teve acesso aos canais próprios de sua área de pesquisa, mesmo sabendo da burocracia dos órgãos públicos para os trabalhos acadêmicos, Escolheu o jornal O Jequitinhonha por sua postura liberal e contrária ao governo Imperial na época, e era um jornal administrado por grande intelectual, Joaquim Felício dos Santos, como é citado textualmente: "inteligência lúcida das Minas Gerais do século XIX'". É um assunto instigante para pesquisa e resenha, pois trata de um dos episódios mais marcantes de nossa história e de seus personagens: a Guerra do Paraguai, D. Pedro II e Caxias. Sabendo-se que foi um fato amplamente pesquisado, e com visões diferentes de avaliações ao longo do tempo. É motivador estudar este livro, e não apenas ler, principalmente quando escrito por uma historiadora da capacidade da autora.


Desenvolvimento

No capítulo 1 a autora escreve um excelente texto sobre as produções históricas e literárias que foram publicadas desde meados do século XX sobre a Guerra do Paraguai. E nesta viagem pelo pensamento e pesquisa dos autores, a pesquisadora nos revela as ideologias por trás de cada produção. Eu particularmente, li as produções marxistas da época, ou seja, o Genocídio Americano e As Veias Abertas da América Latina, que eram leituras obrigatórias para os professores de História na década de 1980. São relatos chocantes sobre o que fizeram com a população paraguaia (Genocídio Americano) e com os povos indígenas da América Latina durante a colonização espanhola. Tínhamos verdadeiro ódio da prática violenta aplicada em nosso continente em nome do capital, principalmente o inglês. A versão sobre o nacionalismo no cone sul, muito me interessou, pois não conhecia essa linha de pensamento. A historiadora foi muito feliz em produzir um texto claro e sistematizado sobre as correntes de pensamento nas produções sobre o evento, sem se posicionar, a não ser um leve respaldo à corrente da História Nova, com a utilização de variadas fontes de pesquisa. No final, realça a questão da pesquisa de jornais da época sobre o acontecimento, ao parece, foi abandonada nestas produções.

No segundo capítulo a historiadora faz uma longa e clara exposição sobre a chamada História Nova, que tem como origem a História dos Annales. Mostra como este pensamento, que tem sua origem no pensamento de Marc Bloch, procura utilizar como fontes de pesquisas várias áreas do conhecimento, além de utilizar de fontes materiais como objetos  artísticos e outros meios que tragam alguma informação sobre o fato pesquisado, como as caricaturas e charges; diferente da História Tradicional ou Factual, que tem nos documentos oficiais, sua principal fonte de pesquisa, ou seja, os próprios documentos já dão a resposta "verdadeira" ao que o historiador está buscando. E dentro desse quadro novo de estudo, o jornal sempre foi uma fonte historiográfica utilizada pelos pesquisadores, e cita Gilberto Freyre como um dos primeiros a utilizar essa fonte, além de outros com menor importância em suas produções. Destaca como as crônicas em jornais foram fontes pesquisadas na Guerra do Paraguai, principalmente aquelas escritas por escritores como Machado de Assis, que defendia e Monarquia e combatia o Ditador Solano Lopez. Mas alerta: precisamos ficar atentos para as posições adotadas pelos jornais em sua publicações, dá como exemplo a verificação se são favoráveis aos governos ou às oposições... enfim, toda atenção é pouca para se buscar a verdade histórica. 

No terceiro capítulo, a autora informa e estuda as principais propostas dos jornais brasileiros e mineiros à época da Guerra do Paraguai, seus fundadores e as cidades de sua localização. Em sua maioria, a imprensa era monarquista, portanto defendia o Imperador e seu governo em relação às políticas adotadas no conflito. Mostra também os recursos utilizados pelos jornais para chamar a atenção dos leitores como charges e desenhos fazendo uma crítica com bom humor do Imperador e da guerra, enfim estes instrumentos ilustrativos faziam com que a população, sem sua grande maioria analfabeta, tivesse acesso à informação. O único jornal que desde sua fundação foi liberal e republicano foi O Jequitinhonha, que será assunto do próximo capítulo, mesmo que de forma pouco desenvolvida, pois seu criador toma um maior espaço no texto. Mas o jornal permeia toda a obra da autora - é seu fio condutor na produção histórica do livro.

Joaquim Felício dos Santos e o Jornal O Jequitinhonha são os assuntos tratados no quarto capítulo. Sobre Joaquim Felício dos Santos, a autora faz uma extensa biografia, elogiando seu caráter humano e libertário, e seu trabalho social e intelectual. Mostra como seu trabalho no jornal era feito no início, e em seu processo evolutivo até chegar a ser o único defensor da República entre os meios de comunicação de Minas Gerais. Suas colaborações intelectuais e jurídicas nunca foram acatadas pela Monarquia, pois era do conhecimento público sua oposição do governo Imperial. Mesmo com a ascensão da República, ainda não foi totalmente reconhecido... coisas da política. Sobre o Jornal O Jequitinhonha, a historiadora traça seu perfil desde sua fundação como um órgão prestador de serviços para a comunidade, além de publicar ideias de intelectuais. Mostra como ocorria seu financiamento, ou seja, com assinaturas de pessoas que não devolviam os exemplares. Tinha assinantes, inclusive no sul da Bahia, minha região de moradia atual.

A Monarquia, e principalmente D. Pedro II, é detonado nas publicações do jornal O Jequitinhonha em seu capítulo 5. D. Pedro é criticado de todas as formas possíveis: por sua saúde, sua voz, seu traje, sua fala no Congresso, os impostos para a família etc. Interessante notar que a questão tributária não é muito diferente do II Império em relação a nossa República de hoje, inclusive sobre alguns destinos dos impostos. Fazem poesia, charges, textos jornalísticos criticando o Monarca. O diferencial de O Jequitinhonha é que este jornal defendia abertamente a emancipação do governo, ou seja, sua queda e a Proclamação da República, pois o Brasil Imperial era uma planta exótica no continente americano. O jornal destacava também que D. Pedro II preocupava-se mais com os problemas das Monarquias europeias do que com os problemas brasileiros, principalmente com as estradas, que em Minas Gerais estavam totalmente abandonadas, depois da decadência da produção do ouro, D. Pedro II, importava mais com a produção do café, que era o produto que mantinha nossa economia na época.

A Monarquia e o Duque de Caxias se confundem nos ataques do Jornal O Jequitinhonha no Capítulo 6. Ora o jornal ataca a Monarquia na pessoa do Imperador Pedro II, e divide a depreciação com Caxias na Guerra do Paraguai. Ataca os aumentos de impostos que o governo cria durante o conflito; e faz uma defesa sutil do governante do Paraguai, Solano Lopes. O que fica claro, nas reportagens do jornais, mesmo que ele tente esconder, é sua intriga partidária com o Partido Conservador que apoia o governo, e portanto a política adotada pela Monarquia para manter a guerra, além de querelas antigas da Revolução Liberal de 1842, em que Caxias foi seu principal vencedor. Daí as batidas frequentes em Caxias, que é um militar sem grande poder de defesa. Mas existiram elogios à atuação de Caxias no conflito por sua postura firme que transmitia segurança aos seus comandados, inclusive foi considerado Patrono do Exército pela República nascente.

Os Voluntários da Pátria, a Guarda Nacional, o Exército Brasileiro e a Polícia Militar de Minas Gerais estão neste sétimo capítulo. Durante a Guerra do Paraguai o governo passou a recrutar "soldados" para participarem dos conflitos, inclusive já tinham restrições dessa participação nos Voluntários da Pátria desde 1841, que foram publicadas no Jornal O Jequitinhonha. A autora entra em detalhes sobre as publicações do Jornal O Jequitinhonha referentes ao recrutamento para a guerra, inclusive como eram chamados os escravos para substituir jovens livres na batalha. Compravam-se escravos e os alforriavam para que participassem em lugar dos filhos dos compradores. Mostra como nessa ocasião o Exército Brasileiro praticamente não existia, mas sim a Guarda Nacional, criada pelo Regente Feijó era a força militar mais importante. Cidadãos do norte de Minas, como Diamantina e Montes Claros foram recrutados para a guerra. No início houve até um certo patriotismo em participar da guerra, mas com a demora, não esperada, de seu final, os jovens perdem o entusiasmo e o governo passa a utilizar da violência para o recrutamento, quase igual ao que faziam durante o combate. Depois da guerra o Exército passou a ter prestígio por sua ação em colocar fim ao conflito.

A questão da Abolição da Escravidão é retratada no Jornal O Jequitinhonha e em outros jornais de Minas, no capítulo 8, mas com o predomínio da divulgação nesses órgãos da imprensa de anúncios de escravos fugidos de suas fazendas e os procedimentos que deveriam ser tomados por quem os encontrassem, inclusive a prisão desses elementos, não importando sua perda, preocupando mais aos proprietários os alistamentos para a Guerra do Paraguai. Este assunto é pouco desenvolvido pela autora. Parece que os fazendeiros tinham medo de uma onda de fugas de escravos para se alistarem, e quem sabe provocar sua emancipação. Vários jornais de Minas e do Brasil faziam essas publicações. O Jornal O Jequitinhonha defendia uma mobilização popular em defesa da Abolição da Escravidão, não acreditando em decisões políticas, e principalmente de D. Pedro II, que fazia sua defesa, mas não fazia nada de concreto para sua realização.

No capítulo 9, a autora compara a narrativa do Jornal O Jequitinhonha com os outros jornais de Minas Gerais sobre a Guerra do Paraguai. Mostra que existia uma disputa ideológica entre os jornais - os de uma visão conservadora, logo favoráveis à política adotada pelo Império brasileiro; e a outra progressista e liberal de O Jequitinhonha, contrária ao conflito e ao Imperador D. Pedro II. A Conclusão segue o mesmo raciocínio, destacando como O Jequitinhonha, quase trinta anos antes, já previa o fim da Monarquia e o início da República, sendo um dos precursores do início da República brasileira. Acho que faltou tratar um pouco do papel do Uruguai e da Argentina no conflito, afinal participavam da Tríplice Aliança contra o Paraguai, de acordo com a visão da autora fica a impressão, para o leitor menos informado, que foi uma guerra apenas entre o Brasil e o Paraguai, caindo o ônus do conflito com suas mazelas citadas no jornal, como as inúmeras mortes, na responsabilidade apenas dos "soldados" e do governo brasileiro.

É um bom livro para se ler pelas informações e análises inéditas, e o estilo literário da autora - uma leitura leve para um tema difícil, traumático e cansativo.


domingo, 26 de novembro de 2023

As negras batinas da conjura de Minas - Maria de Lourdes Dias Reis

Livro As negras batinas da conjura de Minas
Maria de Lourdes Dias Reis
Introdução
Nos textos que dão início ao livro, são realçados o contexto da Devassa em Minas Gerais, em 1789, e um leve perfil de seus participantes, os padres, que apesar de terem uma formação religiosa em Seminários, não levavam muito a sério seu papel religioso de autoridade que conduzia as comunidades nos caminhos da fé. Preocupavam muito mais com seus bens patrimoniais e de riqueza, por isto eram, geralmente, proprietários de terras e de escravos. Como intelectuais tinham acesso à literatura mais moderna da época, mesmo sendo proibida na Colônia, como as obras dos Iluministas, possuindo, inclusive alguns padres, ampla biblioteca, certamente ajudados pelos advogados da época para sua aquisição, como Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa, mas não deixa de ser um mistério como estes livros chegavam ao Brasil, pois era proibida a entrada de livros na Colônia. Os textos introdutórios também informam sobre as várias obras publicadas sobre o assunto, e os Autos da Devassa, por longo tempo desaparecidos em Portugal. Foram sete padres envolvidos na Conjura, mas apenas cinco foram condenados. No Desenvolvimento do livro, a autora traça uma biografia de cada padre envolvido na Inconfidência Mineira. É uma obra mais informativa, com uma leve análise na conclusão.

Desenvolvimento
Esta parte tem início com a narrativa e estudo da vida do Cônego Luís Vieira da Silva, homem culto e voltado para os estudos em suas várias áreas do conhecimento. Era apaixonado por História, mas estudava Filosofia, Matemática, Geometria, Astronomia, Artes Militares e Literatura. Admirava Voltaire na Filosofia, pois em sua opinião "Era o campeão das liberdades individuais", coisa mais desejada na Colônia. Atuou nas cidades de Diamantina e Tiradentes, sempre defendendo as ideias iluministas aplicadas na França e nos Estados Unidos. Era amigo de Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manuel do Costa, e defendia a atuação firme de Tiradentes, inclusive afirmando que se tivéssemos mais homens como Tiradentes, a Conjuração teria avançado. Tinha uma biblioteca de qualidade pela existência de livros de vários autores renomados da época, em todas as áreas. Viveu pobre, e sua riqueza se resumia a sua cultura e livros. Tinha duas filhas, portanto era normal na época os padres não seguirem o celibato.

Sobre o Padre José da Silva e Oliveira Rolim a autora também dedica um longo capítulo, pois sua história de inconfidente é fascinante, sendo o inconfidente mais preocupado com sua riqueza pessoal do que com seu trabalho religioso. Fazia de tudo para se enriquecer cada vez mais, fazendo contrabando de escravos e de diamantes, além de ser um agiota. Foi considerado o mais rico da Inconfidência, pois recebeu herança da família que se aliou a sua ganância por riqueza. Foi o primeiro inconfidente a admitir o valor de Tiradentes como herói de um Movimento. Inclusive foi Tiradentes que levou a Maçonaria para Minas depois de uma viagem à Bahia indo para Vila Rica. Também foi o último inconfidente a ser preso, pois sua fuga foi uma verdadeira epopeia. Ninguém conseguia pegá-lo, pois era muito esperto, certamente tinha medo de perder sua fortuna. Viveu longamente, chegando aos 88 anos, sendo que a média de vida era de 60 anos na época. Ficou preso por 14 anos, e depois da Independência do Brasil conseguiu reaver sua fortuna. Chica da Silva faz parte de sua vida, pois foi filha adotiva de seu pai. Não foi enforcado por intervenção de D. Maria I, pois esta não permitiu o enforcamento de clérigos.

Os padres Carlos Correia de Toledo e Melo e o Padre José Lopes de Oliveira, são estudados pela autora, em suas biografias, nas quais se percebe a pouca importância desses clérigos no movimento da Inconfidência Mineira, pois tinham, em geral, interesses financeiros para solucionar, daí o apoio aos inconfidentes. O Padre José Lopes de Oliveira foi o primeiro padre a morrer na prisão, sendo enterrado pelos próprios soldados da guarnição como um mendigo. Sua morte teve como fator positivo o abrandamento das penas dos demais padres da Fortaleza. Importante notar como estes padres atuaram em várias cidades do interior de Minas, como Tiradentes, Resende Costa, Barbacena, Itapecerica, entre outras, pois na Escola, quando estudamos a Inconfidência Mineira, temos a impressão de que todos moravam em Vila Rica, atual Ouro Preto. O padre Manuel Rodrigues da Costa, apesar do belo texto escrito pela autora, não deve ser considerado um inconfidente, na minha opinião, pois não participou efetivamente da Conjura, apenas ouviu as palavras de Tiradentes, quando o mesmo se hospedou em sua fazenda, informações depois denunciadas nos Autos. Era um intelectual interessado nas ideias iluministas, e pode ser considerado um dos traidores dos inconfidentes, pois depois, inclusive, recebeu D. Pedro I em sua fazenda com honrarias, quando a cidade toda o repudiava. Teve longa e vitoriosa carreira política após seu retorno do exílio.

Os demais padres tiveram participação quase nula na Conjura, a não ser o fato de terem ouvido falar e participar dos depoimentos. É um livro de fácil leitura pela proposta informativa da leitura e por sua escrita clara. As informações são importantes para futuras análises da participação dos clérigos na Inconfidência Mineira, principalmente sobre o jogo de poder entre os padres e o governo português da época, muito ligado à Igreja Católica. Certamente o governo aliviou a participação dos padres no evento. Eu recomendo a leitura do livro para todos os leitores interessados em História, e principalmente pela História de Minas Gerais.

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Uma Breve História do Cristianismo

Uma Breve História do Cristianismo

Geoffrey Blainey

Introdução:
O autor faz um estudo histórico da vida de Jesus e do Cristianismo. Insiste em afirmar que não escreve o livro como teólogo, mas como historiador. Inclusive utiliza expressões próprias de historiadores quando não tem informações seguras do fato como: "parece que Jesus foi batizado..."; "muitos afirmam que..." Utiliza muitos acontecimentos da Bíblia conhecida para exemplificar sua pesquisa. Nas páginas iniciais apresenta vários mapas da Palestina para localizar os fatos ocorridos no início do Cristianismo.

Desenvolvimento:
Começa o livro relatando o início da vida de Jesus com algumas informações históricas sobre seu nascimento e vida na comunidade dos judeus. Relaciona suas parábolas com seu conhecimento da realidade social de sua época, pois utiliza nessas parábolas, informações sobre a agricultura, principalmente. Sobre a morte e ressurreição de Cristo, o autor segue os textos dos evangelhos, principalmente Marcos, que é o primeiro evangelho. Destaca a participação das mulheres na vida de Jesus, sendo que a mulher era muito discriminada na religião judaica. Mostra também como Jesus sempre esteve ao lado dos pobres e trabalhadores mais simples. Não acrescenta nenhuma novidade a respeito da ressurreição de Cristo, apenas alguns relatos com pequenas diferenças, principalmente sobre sua fala na hora de sua morte, que um soldado ouviu e transmitiu. Enfim, segue a tradição bíblica. No início da expansão do Cristianismo, Paulo torna-se o principal personagem em sua divulgação, fato determinado por sua conversão, que ainda continua envolta em mistério. Neste período, o Cristianismo conviveu com outras religiões mais antigas, fato que determinava sua credibilidade. Daí a procura da relação do Cristianismo com o Judaísmo, religião milenar, da qual Paulo tem sua origem.

O autor começa a narrar como funcionavam as comunidades primitivas do Cristianismo, ou seja, logo após a Ressurreição de Cristo. Mostra que alguns líderes foram surgindo e que deram o nome de Bispos, que quer dizer inspetor. A partir desse Cristianismo primitivo tem início alguns definições teológicas que entraram para a História como a inserção da Trindade, em que existem três pessoas na formação da divindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Também o Batismo e o jejum são debatidos e seguidos pelas comunidades. Os encontros eram realizados nas famílias, pois ainda não tinham uma visão de Igreja Templo, como no Judaísmo. Reuniam para comer o pão e beber o vinho, como fez Jesus na última ceia. Mas as perseguições aos cristãos aumentavam cada vez mais, pois existiam vários cultos à época, principalmente o culto aos deuses do Imperador. Muitos morreram em nome da religião cristã, incluindo muitas mulheres. As perseguições cessaram quando o Imperador Constantino se "converteu" e concedeu liberdade de culto a todas as religiões do Império. Constantino foi considerado pelo autor como o Libertador dos cristãos, mas buscava mesmo era uma unidade de seu Império que estava muito dividido, e os cristãos, apesar das perseguições, continuavam crescendo, pois não discriminavam credos em suas obras de caridade, principalmente durante as epidemias.

A partir do século IV começam a surgir as chamadas heresias, e a primeira foi o Arianismo que defendia que Cristo era mais humano que Deus, fator que parece aproximar essa teologia da vida do povo. Mas os arianos valorizavam muito a pessoa de Jesus, acreditando que ele era filho de Deus, mas não igual a Ele, o que leva a sua valorização. Essa doutrina se espalhou muito pelo mundo conhecido à época, situação que criou uma divisão no Império Romano, portanto incomodando ao Imperador Constantino que defendia a unidade de seu reino. Constantino, para resolver o problema convoca um Concílio para resolver as divisões existentes. No final, saiu vencedora a ideia da Trindade defendida pelos primeiros cristãos, mesmo que a decisão não tenha contemplado a maioria do Império, pois houve pouca participação de Bispos, principalmente do Ocidente. E como disse o historiador do livro, em caso de teologia e política 10º de diferença vira 90º. Logo não dá pra discutir esses assuntos.

O autor passa a relatar sobre a formação das Ordens Religiosas, que na verdade não foram de iniciativa da Igreja, que ainda não era organizada como instituição, fato ocorrido a partir de sua liberdade de culto no Império de Constantino; mas por iniciativas de vários leigos religiosas em diversas regiões da Europa e África. Estes líderes criavam os mosteiros e determinam regras para seus membros, eram mais normas disciplinares do que religiosas, porque a Bíblia era o texto básico a ser lido e ouvido nesses locais, mesmo na oração das refeições. Além da questão religiosa, os mosteiros tiveram papel importante na resolução parcial de vários problemas sociais, como a questão da pobreza vivida pelo povo. Trata, o autor, também da situação do casamento, pois achavam que o patrimônio de padres e bispos fazia parte da riqueza da Igreja quando seus mandatários morressem, por isso eram a favor do celibato. As mulheres criaram seus próprios Conventos, pois ao lado dos homens seriam um problema mundano. Os mosteiros diferem da vida de Jesus, pois ele vivia no meio da multidão nas cidades e nas sinagogas para ensinar. Algumas Ordens ficaram famosas como a dos Beneditinos que desenvolve seus trabalhos até hoje.

Como o Cristianismo primitivo sempre foi questionado sobre questões doutrinárias, estas favoreceram o surgimento de novas teologias na Europa. As questões sobre a divindade e humanidade de Jesus sendo avaliadas e revistas em Concílios, deram margem a posições "heréticas" e até para o surgimento de outras religiões e culturas com a muçulmana. O Islamismo criado por Maomé no século VII conseguiu se expandir para a maior parte da Europa e norte da África com suas ideias e conquistas militares. Apenas Jerusalém ofereceu alguma resistência ao seu domínio, mas ali os muçulmanos permaneceram por muitos séculos, disputas que continuam até hoje. Ninguém nunca pensou que o domínio muçulmano permanecesse por tanto tempo no mundo, mas um fator que favoreceu este domínio foi a escrita do Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, escrito apenas por uma pessoa, Maomé, enquanto a Bíblia foi escrita por várias pessoas e em um espaço muito longo de criação, além das constantes mudanças que sofreu, principalmente na Idade Média. Portanto sua compreensão fica muito mais complicada.

O autor trata também de um tema que ainda hoje é discutido em todas as religiões, ou seja, a adoração de imagens. Na Idade Média se discutia, tanto na Igreja Católica do Ocidente, em Roma, como na Ortodoxa, de Constantinopla. Discussão que voltaria à tona com a Reforma Protestante. A Igreja Ortodoxa se expandia mais na Idade Média do que a Igreja de Roma. O Papa que ficava em Roma não se comunicava com o Patriarca, de Constantinopla. Era como se fossem duas Igrejas diferentes. A questão das imagens nunca chegou a uma solução. No livro também é tratada a situação do celibato, também sem nenhuma solução definitiva, pois permaneceu um caos a questão dos casamentos de padres até o Concílio de Trento, quando se criaram os Seminários para a formação de padres. Se discute a questão dos Mosteiros, que eram mais uma forma assistencialista de acolher os mais necessitados, e tinha pouca participação de mulheres. Os Mosteiros são estudados com mais profundidade no próximo capítulo, mostrando seu funcionamento, poder e rotina, além da ampliação de seu número a partir do ano 1000, pois os religiosos esperavam uma segunda vinda de Cristo. Muitos Mosteiros prestavam um ótimo serviço religioso e de trabalho para a comunidade da época, ou seja, eram mais próximos do povo do que as Igreja, é o que o texto deixa transparecer. Faz, o autor, uma leve explanação sobre os péssimos Papas que a Igreja Católica teve no período.

Pelo texto percebe-se que a Igreja Católica, com o tempo, foi assimilando decisões e ideias das comunidades que interessavam a ela (a Igreja), durante a Idade Média. Por mais de mil anos ninguém falava sobre o Purgatório, pois o povo acreditava que seria salvo em nome de Cristo, e todos iriam para o céu, inclusive imaginavam o tamanho do céu para abrigar tantos salvos. O inferno começou a ser aceito depois de um certo tempo, para punir os maus. E o purgatório surgiu no início do ano 1000, talvez pela desilusão com a segunda volta de Cristo. Acreditavam que pecados menores deveriam ser perdoados em um lugar que oferecesse alguma punição a esses pecadores. Falavam também que as orações e contribuições ajudariam a antecipar a ida dos pecadores ao céu. Aí entrou o interesse da Igreja em receber doações com essa finalidade; certamente foi o início das famosas indulgências contestadas por Lutero 500 anos depois.  A procissão de Corpus Christi é mais uma contribuição de uma monja que interpretou um de seus sonhos. E o culto a Maria teve seus momentos altos e baixos. O autor discorre sobre o século XII, que foi um período de grande progresso artístico, especialmente na construção de Igrejas no estilo gótico, e do surgimento da principais universidades europeias.

As Ordens Religiosas têm um capítulo dedicado a seus fundadores, seguidores, origem e evolução. Os Franciscanos e Dominicanos são as Ordens mais estudadas. No início essas Ordens caracterizaram-se pelo voto de pobreza de seus líderes e seguidores. Mas com o tempo de desenvolvimento das cidades no século XII, essas Ordens se enriquecem, principalmente por seus envolvimentos na Educação e Universidades. Surgem templos ricos e belos dessas Ordens. São Francisco de Assis é conhecido por seu amor às aves e à natureza. Deixa uma vida de riqueza para viver na mais extrema pobreza, situação que desagrada seu pai, rico comerciante. É nessa época que surgem os bancos na Europa, ou comerciantes de dinheiro. Sobre as Cruzadas, o autor fala pouco, apesar de sua importância histórica. Realça os objetivos das Cruzadas, que incluía a devoção cristã na batalha, e não só as recompensas de perdão dos pecados, e a herança do Paraíso. Mostra como as Cruzadas duraram quatro séculos e a existência de defensores/acusadores de suas ações, ou seja, como alguns historiadores a defendem e outros a condenam. Reforça os interesses comerciais das cidades de Veneza e Gênova na Itália no empreendimento das Cruzadas.

O trabalho social da Igreja Católica na Idade Média é valorizado pelo autor. Mostra como a participação da Igreja era ampla, desde o atendimento aos mais necessitados até sua participação em quase todas as Universidades da Europa. As Ordens Religiosas também participavam deste trabalho. Apesar deste belo trabalho, a Igreja continuava desunida pelas posições papais, inclusive chegando a ter duas sedes e três papas ao mesmo tempo, pois a Igreja Ocidental foi dividida em duas, com uma na França e outra em Roma, além da Oriental. A sede da Igreja passou a funcionar na França, pois o Papa não queria conviver com a confusão da cidade de Roma, fato que provocou um declínio das atividades econômicas da cidade. Mesmo que considerassem Roma a cidade central do Cristianismo, pois São Pedro foi sepultado na cidade. Começam a surgir, já no final da Idade Média, os primeiros reformistas que contestavam a vida pregressa dos papas, bispos e padres, e dogmas da Igreja, como John Wycliffe e Jan Hus. Foram os precursores de Lutero no século XVI. Novamente o autor volta às questão das Cruzadas entre cristãos e muçulmanos, realçando que as Cruzadas não tinham objetivos apenas religiosos, mas comerciais também. A vida dos peregrinos foi assunto bem desenvolvido pelo autor, mostrando que muitas ações deles eram apenas viagens a passeio, e noutras eram realmente uma preocupação religiosa, ou seja, de perdão dos pecados para aliviar as penas do purgatório. Muitas vezes essas viagens eram planejadas por anos pelas longas distâncias, e nem sempre realizadas, pois geravam muitas despesas.

A partir da segunda parte do livro, o autor deixa a Idade Média e começa a Idade Moderna, tempo da famosa Reforma Protestante e da Contrarreforma Católica. Começa o texto estudando sobre o grande teólogo e intelectual Erasmo de Roterdã, e Martinho Lutero, dois nomes importantes do período. O primeiro foi excelente professor, mas não tinha a ousadia de Lutero, outro grande teólogo e professor de Universidade. Na Reforma de Lutero, este tem a coragem de enfrentar o poder da Igreja Católica e da classe política da época para divulgar suas ideias, aproveitamento de um momento favorável que foi a criação dos tipos móveis de Gutenberg para imprimir suas obras, além de conflitos militares contra Roma. Outros líderes reformadores continuam a obra de Lutero, mesmo com algumas diferenças, e são todos perseguidos e assassinados pela Igreja Católica. Mas apesar das perseguições, o Protestantismo atinge outros países além da Alemanha, como a Suíça e a Inglaterra. O Protestantismo não modifica muito as doutrinas católicas, mas o elemento essencial é a abolição do celibato e o culto das imagens. E João Calvino foi o maior divulgador do Protestantismo, talvez por já ter encontrado um campo aberto de oposição à Igreja Católica, além do surgimento de várias igrejas protestantes em vários lugares, além de sua prática ser mais moderada que a de Lutero. Também surgiram vários líderes como John Knox que deu origem à Igreja Presbiteriana que se espalhou para a América do Norte. Mostra o autor, como a Reforma Protestante contribuiu para a democratização da sociedade, saindo da hierarquia católica. As seitas dentro do Protestantismo e seus líderes são assuntos desenvolvidos pelo autor, além de sua expansão para a América do Norte.

O autor dedica um capítulo ao Concílio de Trento, certamente por sua importância religiosa e histórica. Realça como foi sua organização, vindo gente de vários países da Europa e seus preparativos como alimentos para as pessoas e animais. Mostra que praticamente não houve a presença de protestantes, fato que deixou a Igreja Católica livre para resolver seus problemas. Durante o Concílio houve algumas paralisações por motivos sanitários, tendo a reunião durado quase vinte anos. No final a Igreja Católica foi favorecida, pois fez reformas necessárias para manter seu bom funcionamento administrativo e religioso. Das contestações protestantes retirou apenas as indulgências, principal ponto combatido por Lutero, mas manteve as demais mudanças propostas pelos líderes da Reforma, como o celibato clerical. O principal ponto assumido pelo encontro foi a criação de Seminários para a formação de Padres e Bispos, pois muitos deles mal conheciam os ensinamentos bíblicos. No final o Concílio qualificou o trabalho da Igreja Católica, encontro de tal envergadura só ocorreria no Concílio Vaticano II, no século XX. Além do Concílio de Trento, o autor faz um estudo histórico da descoberta da América e sua colonização em nome do poder econômico e religioso da Europa. As potências da época, Portugal e Espanha são os principais protagonistas desta colonização, em que a Igreja e as Ordens Religiosas têm papel essencial. Segue o autor falando da expansão do Protestantismo, principalmente sobre o papel de John Wesley que deu origem à Igreja Metodista, que se tornou por um século a maior denominação religiosa dos Estados Unidos.

A França do século XVIII passa a ser o foco principal de estudo do historiador, pois o país era considerado a nação mais importante do mundo, não só por suas imensas possessões na América, Ásia e África, mas pela efervescência de ideias religiosas e filosóficas. Vários estudiosos questionavam o poder da Igreja ligada à Monarquia e que vivia, em muitos casos, em desacordo com os ensinamentos cristãos, apesar de ainda ser a que melhor funcionava na Europa. Daí surgirem ideias ateístas e o poder da Ordem Jesuíta, ligada ao Papa. Além da França se preparar para a famosa e importante Revolução Francesa em 1789. Além disso, passava o país por uma grave crise financeira por ter ajudado na Independência das 13 colônias americanas, depois chamadas de Estados Unidos da América. A partir da Revolução Industrial e da Revolução Francesa, o novo momento histórico torna-se mais rápido e complexo devido ao desenvolvimento econômico e social do mundo, principalmente da Europa e Estados Unidos. Esta situação faz surgirem várias seitas religiosas, principalmente protestantes. Há uma preocupação espiritual e material maior, inclusive de atendimento aos necessitados que alguns líderes e seitas assumem. A mulher passa a se envolver mais com as questões religiosas e sociais, reivindicando seus direitos iguais aos dos homens. É o tempo da intolerância religiosa nas próprias seitas, que aos poucos vai sendo solucionada, inclusive sobre a escravidão negra, que interessava muito às nações desenvolvidas da época e aos proprietários de escravos africanos.

O autor passa a mostrar como aconteceu a "cristianização" da Ásia e África por missionários protestantes e católicos, e seus vários líderes. Relaciona os países católicos e protestantes no século XIX, e como a I Guerra Mundial foi um enfrentamento de países cristãos, em sua grande maioria. Realça também como o Papa Bento XV foi contra o conflito do início ao seu final, sendo que na Segunda Guerra, o Vaticano não se posicionou sobre a matança de judeus pela Alemanha. Não seria porque Mussolini doou o território do Vaticano para a Igreja Católica, fato que o autor não cita? Durante o período das duas Grandes Guerras, os cristãos foram perseguidos pelos regimes nazista, comunista e fascista. Lênin, no início de seu governo, já definia o cristianismo como uma religião a ser extirpada da Rússia, pois era considerada o maior mal do planeta pelo líder comunista. O Concílio Vaticano II, foi considerado o evento católico que trouxe as maiores modificações do cristianismo na História; ou seja, acabou com a Missa em latim e o padre passou a celebrar de frente para o público. Numa História em que o autor vai e volta no tempo, ele trata do surgimento de várias seitas religiosas no mundo, principalmente nos séculos XIX e XX. Trata também da Teologia da Libertação surgida na América Latina, inclusive no Brasil, mas sem tomar posição contra ou a favor.

Excelente livro para quem deseja conhecer a História do Cristianismo desde suas origens até os dias atuais. Passando pelo Papa João Paulo II, os Muçulmanos, os Protestantes e os Beatles. Além de informativo, o autor analisa os fatos com seu jeito objetivo e elegante de escrever. Eu recomendo com louvor!





 

domingo, 13 de agosto de 2023

Corrupção: lava jato e mãos limpas - Maria Cristina Pinotti (ORG.)


 Corrupção: lava jato e mãos limpas

No Prefácio, o Ministro do Supremo Tribunal Federal (que não faz jus dizer o nome), mostra sua cara de esquerdista, produzindo um texto tendencioso e mentiroso. Não cita a corrupção nos governos de esquerda no Brasil desde 2003, e mesmo quando cita o Mensalão nem sugere quem era o presidente da época, apenas as punições de seus assessores. E tem a cara de pau de afirmar que o Judiciário brasileiro não tem influência política, mesmo sabendo que são indicados para o cargo para o STF pelos Presidentes. Tenta transmitir uma mensagem de otimismo sobre o combate à corrupção brasileira, sendo que ele mesmo teve o descaramento de ir ao Congresso intimidar os legisladores a não votarem o voto auditável, para facilitar a fraude nas eleições de 2022. Além de agredir verbalmente, nos Estados Unidos, um eleitor contrário ao seu posicionamento político nas eleições com a frase que entra para o folclore nacional do já famoso "Perdeu, Mané". A organizadora do livro errou ao escolher a pessoa para fazer o Prefácio do livro.

Na Apresentação, a organizadora do livro, apesar de sua esperança no combate à corrupção pelo Judiciário brasileiro, mostra o fracasso que foi na Itália; mas como o livro foi escrito em 2019, não pôde presenciar o desastre político que foi no Brasil. Parece até que o Supremo Tribunal Federal copiou o modelo italiano na íntegra, mudando a legislação e inocentando todos os culpados, mesmo com a devolução de bilhões roubados dos cofres públicos. Com certeza, vai ter que produzir um novo livro. Segue, a autora mostrando as relações existentes entre as instituições nacionais, a prática da corrupção e a cultura. Realça que a corrupção sempre existiu no Brasil, mas com o governo petista virou uma corrupção sistêmica, ou seja, o PT só governa utilizando o recurso ilícito da corrupção. Mostra também os erros cometidos pela Presidenta Dilma que levou a sua deposição, que foram muito além das famosas "pedaladas".

O próximo autor relata todo o processo desenvolvido na Itália sobre o caso Mãos Limpas, do qual participou desde o seu início, destacando toda a composição da equipe de investigação e como tudo começou, situação semelhante ao que aconteceu no Brasil anos depois. Importante ressaltar o tamanho da equipe investigativa, que foi composta de mais de 5 mil pessoas de todas as áreas jurídicas e policiais. E também o tamanho do quadro investigado, e que teve seu começo numa simples revelação de uma pessoa procurada para se corromper, que terminou entregando um sistema gigantesco de corrupção que a cada dia aumentava o número de envolvidos, inclusive juízes de tribunais. Como no Brasil, os investigadores, em determinado momento, passaram a ser condenados injustamente com mentiras, e tiveram que provar sua inocência. A solução apontada pelo autor não passa apenas pela punição dos culpados, mas pela Educação para o cumprimento das leis do país.

Segue outro autor dos artigos relatando sobre o processo de corrupção na Itália e seu combate com a Operação Mãos Limpas. Fala de detalhes sobre a relação entre a máfia, os políticos, os magistrados, empresários, e como isso acontecia na prática. Mostra que este fato já acontecia há mais de vinte anos, e não tomou tal envergadura na investigação até 1992. Analisa as razões da investigação ter acontecido naquela época, e aponta como uma das causas o período de decadência econômica da Itália, sendo que alguns defendem a queda do muro de Berlim, como fator determinante. O sistema de corrupção é detalhado na sua formação e julgamento. Cita, o autor, casos específicos do enfrentamento com a Justiça. Inclusive um condenado afirma que não existe balanço com cálculos corretos, ou seja, são todos forjados.

Deltan Dallagnol mostra com detalhes todo o esquema de corrupção ocorrido no Brasil, e principalmente na Petrobras, e sua relação com a classe política e empresarial. Destaca que nem todo político participou do esquema, sugerindo que pode haver um novo modo de se fazer política com pessoas honestas, que devem entrar para a classe política, pois esta é a solução para se eliminar a corrupção. Interessante notar a declaração de um condenado ao afirmar que a corrupção no estilo atual existe desde o governo Sarney. Não quer sugerir que o Regime Militar foi mais confiável que a Nova República? Talvez. Se foi, "quantos sonhos foram vendidos, tão caros, que eu nem acredito" (Plagiando Cazuza). Algumas informações são muito importantes como: desde 2003 o PT indicou todos os cargos da Petrobras; os processos eram divulgados ao vivo para qualquer cidadão que tivesse acesso à internet, inclusive a imprensa acompanhava todo o julgamento ao vivo e divulgava minutos depois; os advogados que defendiam os acusados eram competentes e caros; as delações eram feitas por iniciativas dos próprios acusados, ressalte-se que muitas delações foram dispensadas pelos juízes por ausência de importância para o processo; para o sucesso das condenações a opinião pública sempre foi necessária; os julgados, que eram ricos e poderosos, sempre criaram narrativas falsas para desqualificar os juízes, e nenhum destes pertencia a partido político e eram concursados; durante o processo, o Legislativo criava leis para desqualificar as condenações e reduzir as penas dos condenados, chegando a propor emendas à Constituição; o STF também teve seu papel na aprovação de medidas para redução de penas dos condenados poderosos e ricos.

Sobre o STF, o texto abaixo mostra sua história de conivência com o poder, que perpassa toda nossa história política desde a República Velha, ou seja, nunca esteve contra os poderosos, mas sim, ao lado deles (Marco Antonio Villa).

31 Marco Antonio Villa citado em Luiz Flávio Gomes, O jogo sujo da corrupção: Pela implosão do sistema político-empresarial perverso. Em favor da Lava Jato, dentro da lei, e pela reconstrução do Brasil. Bauru: Astral Cultural, 2017, pp.167-8.

Quando falam da liberação de presos condenados, fica clara a opção por presos que tinham penas maiores e valores desviados em milhões, como é o caso de José Dirceu, condenado a mais de trinta anos de prisão e com desvios vultosos, isto só na Lava Jato, sem contar o processo do Mensalão. Alguns juízes se destacaram nessas liberações, como Gilmar Mendes, que em uma única decisão liberou 47 condenados em segunda instância. Poucos juízes tomaram partido da efetivação da Justiça contra esses condenados do colarinho- branco. Interessante notar como hoje votam pela liberação das drogas, e até 2018, os traficantes eram condenados pela STF. É contradição uma atrás da outra. E a esperança do povo em relação à Suprema Corte do país vai para o lixo. Sobre a Lava Jato é relevante notar a semelhança com o processo das Mãos Limpas na Itália, parece até que os condenados copiaram na íntegra sua prática, pois até usar as regras do futebol para planejar as falcatruas entre as empresas foi uma aberta semelhança. Outra informação importante foi sobre as delações premiadas, pois estas não eram aceitas como os condenados as contavam, sem antes fazer sua confirmação através de pesquisas pelos tribunais e juízes, pois as mentiras eram mais que comuns entre os julgados.

Incrível: Ninguém previu o desastre ocorrido durante as eleições de 2022, mesmo sabendo do final da operação Mãos Limpas; com a descriminalização dos envolvidos na Lava Jato, e a decretação da inocência de Lula, mesmo após mais de um ano de prisão, para garantir sua candidatura. Vale a pena a leitura do livro para o conhecimento do processo da Lava Jato e sua relação com o de igual teor, a Operação Mãos Limpas na Itália, que terminou da mesma forma que o processo brasileiro, e para se entender como funciona a "Justiça" em nosso país. A esperança é como o tempo; muda quando menos esperamos.

quarta-feira, 7 de junho de 2023

O Livro Negro do Cristianismo

 


O Livro Negro do Cristianismo

Dois mil anos de crimes em nome de Deus

Jacopo Fo. Sergio Tomat. Laura Malucelli

Introdução

Na Introdução os autores fazem uma evolução das atrocidades cometidas pela Igreja Católica do século IV, quando se tornou a Igreja oficial do Estado Romano, até o século XVIII. Mas distingue estas ações dos trabalhos humanísticos dos cristãos distanciados das lideranças do clero corrupto existente ao longo da História. Mostra que o mundo é mais humano hoje por essas ações. Um nome importante nestas ações humanas foi São Francisco de Assis. Fala resumidamente sobre as violências praticadas na Europa pela Inquisição, que atingiu outras regiões como a América Colonial e a África, e a omissão e apoio dado ao genocídio judeu, ao nazismo e fascismo, e às ditaduras sanguinárias da Europa e da América Latina.

Desenvolvimento

Muitos podem pensar que o autor já vai falando das violências praticadas pela Igreja Católica em sua história, mas este não é o plano da obra. Começa narrando, e fazendo leves considerações sobre o surgimento de Jesus e Paulo no cenário dos primeiros cristãos. Realça a diferença entre as pregações de Jesus diante dos discursos de outros "profetas" de seu tempo e das ideias e práticas dos fariseus. Mostra também, mais longamente a ação de Paulo, antigo perseguidor dos cristãos, e depois o principal divulgador do cristianismo pelo mundo conhecido da época. Sobre Paulo destaca sua discriminação com as mulheres, coisa diferente da prática de Jesus, e suas diferenças com os discípulos, mostrando um lado pouco cooperativo nas relações com seus companheiros, inclusive com Pedro, considerado o Pai da Igreja. 

O autor trabalha bem a questão histórica da origem do Cristianismo, principalmente explicando como teve início a relação do Império Romano com os primeiros cristãos. Faz uma biografia de Constantino que deu início ao domínio do Império Romano sobre os primeiros cristãos. Mostra a política adotada por Constantino quando percebeu o crescimento dos cristãos na sociedade da época, diante dessa nova realidade, dá liberdade de culto a uma seita, antes subversiva que passa a fazer parte do governo imperial. Mostra o lado cruel de Constantino, um Imperador assassino, que passa a dominar toda a sociedade, agora com o apoio dos cristãos, que recebem cargos públicos, coisa não aceita pelo cristianismo primitivo. Começa então o poder político e econômico da Igreja Católica na Idade Média. De perseguidos passam a ser perseguidores de hereges. Constantino convoca o Concílio de Niceia que determina a Trindade e a unidade do Catolicismo. 

Sobre os hereges e as heresias mostra, o autor, que eram questões mais de unidade da Igreja e ajustes políticos. Os Concílios tinham como objetivo desfazer quaisquer divergências com o pensamento majoritário sobre as questões doutrinárias, que muitas vezes eram revistas em Concílios futuros. Revela também que até hoje as heresias da Idade Média continuam vivas em Igrejas de países, principalmente na África e Oriente. Mas as questões das heresias foram acompanhadas de punições e assassinatos. E os privilegiados tinham direitos políticos como a isenção de impostos e transmissão de cargos por hereditariedade. Enfim, era um bom negócio estar com a maioria. Mas muitos tiveram a coragem de combater esta situação e defender suas ideias. 

As lutas religiosas e pelo poder continuam sem parar, e os Papas fazem parte desses conflitos para garantir um patrimônio maior para a Igreja. Os Concílios se sucedem para combater as heresias e confirmar ideias dos governantes em matéria de doutrina católica. O Ocidente e o Oriente lutam em busca de uma unidade política e religiosa... e as milhares de mortes se sucedem. No tempo de Carlos Magno, rei francês, a Igreja novamente se alia ao Estado acumulando poder que se estenderá por toda a Idade Média. Carlos Magno conquistou quase toda a Europa impondo com violência seu poder político e da Igreja. Foi venerado e coroado pelo Papa como Imperador do Sacro Império Romano, consolidando a separação da Igreja Ocidental da Igreja de Bizâncio, ou Império Romano do Oriente. O autor faz um relato sobre os Papas mais licenciosos do período; que de religiosidade não tinham nada.

Sobre as Cruzadas o livro possui um capítulo mais amplo, pois a ação do Movimento foram extremamente importantes para mostrar como a Igreja Católica apoiou e usou a boa vontade e religiosidade das pessoas na Idade Média para alcançar os objetivos papais, utilizando métodos condenáveis como o grande número de assassinatos em nome de Deus. A narrativa é de deixar espanto em leitores menos acostumados com esse tipo de informação. Até as crianças participaram das Cruzadas, e a Igreja viu tudo sem se manifestar, pois faziam parte de seu projeto de poder a todo custo. No capítulo sobre as heresias faz uma relação da ação dos hereges com o poder instituído da Igreja e da nobreza. Mostra como os hereges foram reprimidos de forma violenta e assassina para garantir o domínio da classe dominante eclesiástica e nobre sobre a sociedade medieval. Faz um relato breve sobre algumas heresias e suas características na prática religiosa de seu tempo. Interessante notar como a Igreja perseguia as próprias Ordens Religiosas utilizando o recurso das Cruzadas.

O autor faz um bom estudo sobre a formação do texto da Bíblia, inclusive mostrando que os cristãos, os judeus e os muçulmanos são os religiosos do livro, pois seguem os ensinamentos escritos de suas respectivas religiões. A Bíblia católica surgiu depois de uma união dos vários textos esparsos selecionados por São Jerônimo, no século IV, formando a edição chamada de Vulgata, escrita em latim. Depois foram publicações em línguas nacionais, principalmente depois do surgimento da prensa de Gutenberg. Este fato aumentou o número de edições, logo a Igreja passou a proibir sua leitura pelo povo, pois assim veriam as contradições dos escritos bíblicos com a prática do clero católico. A Bíblia foi o primeiro livro impresso pelos tipos móveis de Gutenberg. A Inquisição ganha um capítulo inteiro no livro, e revela fatos interessantes e pouco conhecidos sobre a instituição, como a divisão dentro da Igreja Católica sobre sua prática. Não foram todos os religiosos que apoiaram a perseguição sistemática dos hereges dentro da prática religiosa, principalmente na Idade Média.

A famosa caça às bruxas na Idade Média ocupa lugar de destaque no livro. Interessante notar que este fato não se limita ao período medieval, mas se estende pela Idade Moderna, e sendo praticada tanto por católicos como protestantes depois da Reforma de Lutero. O autor mostra alguns métodos de tortura, os motivos e o principal alvo que eram as mulheres. Certamente um combate da sociedade patriarcal ao poder da mulher, principalmente nas curas de doenças com ervas medicinais e, na função primordial de parteiras. É um capítulo recheado de atos violentos contra o ser humano praticado em nome de Deus. Dá uma certa revolta ver retratada e registrada tanta violência, inclusive contra crianças. E surpreende a ação das Ordens Religiosas, principalmente dos Dominicanos no processo, pois os escritores do Martelo das Feiticeiras eram monges dominicanos.

A Reforma Protestante, principalmente a partir das ações de Lutero e Calvino não desfaz a prática violenta da religião na Idade Média. Lutero foi corajoso ao enfrentar o poder do Papa e contestar a aberração das Indulgências, que parece ser o ápice da corrupção do Vaticano. Mas os protestantes também praticam seus atos de violência contra os católicos. De qualquer forma, o Protestantismo marca uma nova fase na História religiosa, principalmente da Europa. O autor é bem didático na produção do texto sobre a Reforma Protestante. Um texto com subtítulos que esclarecem bem os fatos históricos ocorridos no período, principalmente no século XV, mas sem muita análise, mais uma História Factual, que não deixa de ser útil e informativa. A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), marca o ápice da violência em nome de Deus, pois católicos quanto protestantes vivem momentos de extrema desumanidade, tanto é que o número de mortos durante o conflito se equipara ao ocorrido nas duas Guerras Mundiais do século XX.

Na Idade Moderna, ou seja, a época do Colonialismo e da Escravidão indígena e africana, a Igreja Católica, assim como as Protestantes, tiveram papel preponderante com a violência praticada contra as civilizações nativas da América e da África. Mesmo que alguns padres e Bispos tenham defendido e denunciado as atrocidades, sua ação teve efeito  mínimo no quadro geral da colonização/exploração das áreas fora do continente europeu. O Bispo Bartolomeu De Las Casas foi o principal nome nas denúncias dessas atrocidades, tendo publicado livros sobre o assunto e levado a situação até os reis da Espanha. Interessante notar como as Ordens Religiosas participaram ativamente da violência contra os indígenas da América, principalmente a Companhia de Jesus, ou Jesuítas, que torturam e tinham exércitos que impressionaram até os "soldados" portugueses. O Papa sempre foi cúmplice de tal barbaridade em "Nome de Deus". O continente africano sofreu essa violência de forma sistemática até o século XX.

A História da Igreja Católica no século XX e suas relações políticas, sociais e econômicas é de dar indignação a qualquer cristão. É uma mistura de corrupção, violência, falcatruas, pedofilia, mentiras, omissão e nada de cristianismo. O autor faz um relato de arrepiar, mesmo com textos curtos e objetivos. É até difícil de acreditar que uma instituição histórica e tão respeitada foi capaz de fazer tanta coisa degradante ao longo de seu período de poder. E continua a fazê-lo até hoje. Verdadeiras aberrações! Nos Apêndices, o autor fala mais sobre as heresias, e seus principais líderes, sobre a Reforma Protestante e suas lideranças, a Contra-Reforma, e até sobre os métodos de tortura utilizados pela Inquisição. Digno de nota a discriminação feita aos judeus pela Igreja Católica, ainda na Idade Média, quando os mesmos, entre outras restrições, tinham de usar uma identificação para sua crença, como no Nazismo alemão. Talvez daí o apoio do Vaticano aos regimes totalitários no século XX. É um livro pra quem tem nervos fortes!

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Reflexões sobre a História - Beto Souto

A História ensina e educa

1. Um pouco da História em minha vida
    Desde que comecei a trabalhar e pude comprar os livros que queria ler, comecei a ler sobre História. No meu serviço passava um adolescente vendendo livros das bancas de revistas. Logo me apaixonei pela coleção de História da República de Hélio Silva. Depois comprei outros livros de História. Comprei livros sobre a II Guerra Mundial, sobre os Presidentes do Brasil, estes também do Hélio Silva. Mas lia romances também, estes inspirados e exigidos pelos professores(as) da época. Gostava muito de História, mas tinha também uma paixão pela Língua Portuguesa. No futuro, já como Historiador, vi como as duas combinavam. O Historiador precisa saber escrever bem e com clareza. Fiz o 2º grau, já com uns 25 anos, pois na minha época ainda tinha a tal de "bomba" ou repetência. Hoje empurramos os alunos pra série seguinte para não dar despesa aos governos, mesmo que o aluno não faça nada na escola, apenas esteja de corpo presente, como um defunto. E depois os governos falam de qualidade da Educação. Terminei o segundo grau sem saber qual curso fazer, até que por inspiração de Deus, e por participar ativamente da comunidade, terminei escolhendo História, pois certamente o conhecimento histórico me daria suporte  para meus trabalhos comunitários na Igreja, e nas entidades do bairro.

2. Na Faculdade
   Quando fiz a Faculdade de História em Caratinga, Minas Gerais, entre 1980 e 1983, praticamente não existia teoria da História, a não ser uma aula semanal de Introdução aos Estudos Históricos, com um professor que era padre já em fim de carreira, portanto estudamos a História mais tradicional possível, a chamada História Factual. O professor adorava Tucídides, e falava dele em todas as aulas, um historiador que escreveu um único livro, e mesmo assim não chegou ao seu final, cujo término ficou para outro historiador e filósofo grego, Xenofonte.

3. Definições de História
   Na Faculdade nos deram definições de História de vários autores, e com o tempo e leitura fomos recebendo novas definições. Achei interessante a definição de que a História é como a casa do Senhor, tem muitas portas e janelas. Diante desta ideia também criei a minha definição: A História é como uma grande onda que bate e rebate na praia, mas sempre está lá com sua harmonia de transformação. Já falaram que a História não existe porque tudo é História, ou como eu digo, que tudo tem História; mas a História tá sempre aí resistindo às várias investidas de "historiadores" que insistem em preservar a memória de nosso povo. E mesmo após discussões intensas sobre a teoria da História acabamos produzindo a história que o povo conhece: "A busca da verdade através dos fatos verídicos". Como faziam Heródoto e Tucídides em sua origem na Grécia.  E mesmo que utilizem vários métodos e ciências auxiliares, além de fontes as mais variadas; buscam mesmo é a verdade através dos fatos.

 

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