quinta-feira, 25 de junho de 2026

O Cardeal Newman


Introdução

Desde o princípio observamos que a vida do Cardeal Newman foi marcada pela fé em Deus, mais especificamente pelo Deus do Cristianismo; pois sua época (século XIX) foi um tempo em que a Igreja Católica, e também as Protestantes, tinham poder espiritual e temporal sobre as populações, tanto na Europa, como na América. Além de sua imensa fé, dom recebido de Deus, talvez para sua futura missão religiosa; foi dotado de uma inteligência rara, pois viveu para os estudos, sendo toda sua vida da adolescência à fase adulta, marcada pelo academicismo. Foi primeiro Protestante, certamente por influência familiar, para depois se converter ao catolicismo.

Desenvolvimento

Newman foi muito sensível aos problemas humanos. Foi um defensor dos mais necessitados, ou seja, ligando sua vida religiosa ao cotidiano humano, coisa que poucos fazem. Foi Anglicano, Calvinista e Católico. Não via com bons olhos a Reforma Protestante. E textualmente cita à página 70: "(...) a Reforma protestante, longe de ser renovação, era a primeira etapa da desintegração da civilização cristã." Mas a Reforma, na opinião de historiadores, foi benéfica para a Igreja Católica, pois fez críticas necessárias para a reformulação da estrutura eclesial da Igreja, principalmente com a criação de Seminários para a formação de padres, prática inexistente até então, pois antes os cargos eclesiásticos eram políticos. Também provocou o fim das Indulgências, uma mancha difícil de apagar da História da Igreja Católica. O biografado conhece os males históricos de Roma, como a corrupção, mas não vê no Protestantismo um caminho certo, que o Catolicismo oferece através da obediência aos dogmas, mas não questiona a origem dos dogmas, mesmo quando contesta o arianismo. Suas informações históricas são importantes, principalmente sobre o nazismo, as Guerras Mundiais e ação do FBI no combate ao crime nos Estados Unidos. Não vê uma harmoniosa sociedade sem a presença do catolicismo.

Na Inglaterra contrai uma febre que o acompanha pela vida toda. Mas continua sua luta com pregações na Faculdade e publicações religiosas. À página 77 faz uma reflexão válida para os dias de hoje: "(...) ser religioso não é freqüentar os templos no domingo e viver pagãmente a semana". Segue o autor, colhendo informações de quem estudou com Newman em Oxford. Primeiro um historiador que faz um longo depoimento, inclusive comparando-o a Júlio César, em seu porte físico e em sua capacidade de convencimento, destacando seu lado simples para alguém que tinha amplo conhecimento dos problemas de sua época. Outros depoimentos realçam seu ideal cristão e sua diferença intelectual diante dos demais alunos da escola, e sua saída deixou um vazio nunca preenchido em qualidade. Seus sermões eram admiráveis e nunca superados. Em suas palavras destilavam simplicidade e rigor no saber, que deixavam os colegas admirados. Era como se Santo Agostinho tivesse voltado de sua época.

No longo Capítulo 3, Em Demanda de Roma; o autor busca o processo e as causas da conversão de Newman. Utiliza como um dos motivos suas ações inconscientes  na infância. Utiliza a História como fonte verdadeira da Verdade, e para isto faz uma volta ao início do Cristianismo Primitivo e aos Grandes Padres da Igreja e seus escritos sobre a Doutrina Católica. Mostra que nunca houve um protestantismo antes de Lutero. Mas a História mostra que houve alguns nomes que combateram a Igreja Católica antes de Lutero e foram punidos com a morte, e Lutero não morreu assassinado porque teve o apoio dos Príncipes alemães que desejavam as terras da Igreja, pois afinal a Igreja Católica era dona de 2/3 de todas as terras da Europa. Veja texto abaixo:


Interessante notar como o autor e Newman recorrem à História, para explicar que apenas a Bíblia tradicional não é infalível em questão de fé, pois necessita da presença de outros textos  e explicações sobre sua infalibilidade, daí as Encíclicas Papais. Oferece o texto informações importantes sobre a formação do texto bíblico, citando que existem vários evangelhos e cartas do inicio do Cristianismo, e a Igreja escolheu aqueles que para seus estudiosos eram os inspirados para dar início ao caminho que deveria ser seguido pela Igreja Católica sem desvios. Valorizam os primeiros Padres da Igreja nesse processo na criação da unidade da fé cristã. E um questionamento se segue: Além das Escrituras nada mais foi revelado? (Página 119).


A conversão de Newman é considerada quase uma Reforma dentro da Igreja Anglicana. Após sua conversão muitos outros clérigos o seguiram; no inicio mais de trezentos seguidores, depois outros seguiram o mesmo caminho. Mas nem tudo foi um paraíso para Newman, pois foi perseguido por outro religioso que quase o levou para a prisão. Para sair dessa situação teve ajuda até do exterior. Logo após virou Bispo, mesmo enfrentando problemas. A Igreja Católica é vista por Newman como a unica verdadeira. O mesmo faz um longo discurso, através de publicações sobre as características da ciência e da religião. Afirma que não existe ciência sem religião, pois as ciências não defendem valores morais, objetivo próprio da religião. E que a ciência não substitui a religião. Como foi defendido no século XIX com o Positivismo de Comte. Interessante sua opinião sobre o papel das Universidades como espaço de conhecimento; ficando o humanismo cristão ligado aos ensinamentos das técnicas através da Filosofia, ou seja, a Educação produzida ao lado do ensino.

Newman é um ferrenho defensor da santidade da Igreja Católica, mesmo sabendo das atrocidades praticadas por ela ao longo da História, quando miniminiza seus pecados em seu último discurso na Faculdade de Medicina, por ele criada: "(...) por vezes expondo seus ministros à morte, outras também, embora raramente, vibrando golpes..." Página 186. Como hoje, as divisões políticas existiam dentro da Igreja, na época, entre conservadores e liberais. E Newman, conseguia ficar neutro nestas questões; situação que o colocava inimigo dos dois lados. O religioso abraçou o Catolicismo de forma descomunal e este fator o levou a grandes debates e a somar grande número de inimigos até na Igreja Católica. Foi profético ao imaginar os grandes males do Modernismo da época, que terminou por levar a humanidade a duas Guerras Mundiais em detrimento da fé religiosa. É defensor da infalibilidade do Papa, não só religiosa, mas também temporal, antes de sua instituição em 1870. Sua conversão teria que ser completa. Defendia as Universidades como espaços de conciliação entre fé e razão. Não seria um território ideológico do catolicismo, como o é ainda hoje?

Rubem Alves, escritor, psicanalista, educador entre outras práticas, afirmou que todas as religiões pregam e defendem o sofrimento. E por este sofrimento viveu Newman intensamente na Igreja Anglicana, com os protestantes e com os católicos influentes. Afirma que o sofrimento dos santos completam o sofrimento de Cristo crucificado, e agradecem com a suprema graça. Seria então o papel das religiões garantir este sofrimento que o próprio dia a dia já proporciona ao fiel? É difícil aceitar esta visão religiosa! A vida do clero de todas as religiões não confirma este sofrimento do povo trabalhador. Mesmo que tenham suas dificuldades e sofrimentos, como os teve Newman e tantos outros santos e devotados às Igrejas. Na página 240 do livro, Newman diferencia a religião da pesquisa das ciências, aliás como é vista hoje; religião não é pesquisa de Arqueologia ou documentos, mas uma questão de fé pessoal.

E no encerramento do livro, este revela um Newman, cristão na acepção da fé mais clara e combativa. Teve o privilégio de ser nomeado Cardeal por um dos maiores Papas que a Igreja já teve, Leão XIII, principalmente por sua ação na área social e trabalhista, em tempos de conflitos entre socialistas e capitalistas. Newman foi de extrema coragem ao deixar, convicto, o Anglicanismo e abraçar de corpo e alma, o Catolicismo romano. Foi um religioso de letras apuradas, de História consistente, Filosofia e Teologia, enfim, foi um religioso pela fé e pelo estudo racionalista.

Em tempos de reflexão e de pouca leitura, recomendo a leitura de mais este livro inspirador.





 



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