quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Leituras Multidisciplinares sobre a Estrada de Ferro Bahia e Minas

 


Trilhas Históricas

Fiquei sabendo da existência desta Estrada de Ferro quando visitei o Museu do Professor Luís em Nova Viçosa (BA). Seu museu possui várias relíquias antigas como máquinas de costura, ferramentas, retratos etc. É um museu pouco conhecido na cidade. Algumas escolas o visitam, mas não consta da Programação Cultural da cidade por falta de divulgação. Ele se localiza em um amplo espaço em cima de sua casa. Foi nesta visita que me deparei com um quadro de uma das Estações da Ferrovia Bahia e Minas. O Professor Luís me deu algumas informações sobre a ferrovia. A partir daí passei a me interessar pelo assunto. Descobri mais informações no livro Retrato Histórico de Nova Viçosa, da Doutora Jean Albuquerque. Posteriormente publiquei um pequeno livro de crônicas sobre a cidade no qual coloco a Estrada de Ferro em uma cronologia da História da cidade. E agora, com muita surpresa, tive acesso a este maravilhoso livro, através de meu cunhado e amigo, Rogério Lana Figueiredo, pois sabendo de meu envolvimento com a cidade de Nova Viçosa, que fazia parte do traçado dos trilhos da Ferrovia, me enviou cópia do e-book título da resenha, e que tem como coautor seu primo, Sérgio Lana, que conheci criança.

Desenvolvimento
No Prefácio, com um conteúdo cheio de informações sobre a obra, é enfatizado o caráter social da História e da Geografia, ou seja, a compreensão do espaço como ambiente de transformações e melhorias para a população.

Na Apresentação, os autores expõem o quadro geral da obra, revelando um planejamento e execução em duas partes, ou seja, a primeira geo-histórica, analisando a cartografia territorial das regiões do Sul da Bahia em documentos acadêmicos e do Nordeste de Minas; e a segunda acompanham a vida cultural da estrada de ferro Bahia Minas "arrastando" sobre seus trilhos, sem que os envolvidos percebessem, a transcendência que os autores descobrem sob o manto obscuro da realidade: a estrada de ferro não foi apenas um meio de transporte, mas um arsenal de envolvimentos de ferro e gente. Buscam valorizar as regiões do traçado da ferrovia e servir de subsídio para os empreendimentos ferroviários no Brasil. 

No início do livro, os autores traçam o plano da obra: primeiro trabalham a territorialidade do trajeto da ferrovia e em seguida tratam o envolvimento de famílias e trabalhadores da ferrovia. Como é uma obra multidisciplinar, utilizam-se de várias ciências como a Geografia, a História, a Matemática, a Geologia etc. Além de ser uma obra de Doutorado que demanda ampla pesquisa documental e de depoimentos de sobreviventes do período estudado.

O primeiro capítulo trata das relações entre Geografia e História na construção/reconstrução do espaço geográfico. É um texto bastante teórico, próprio de teses de Doutorado. Mostra uma subdivisão da Geografia e a relação espaços-tempos a partir da citação de vários autores em várias épocas. Daí a fundamentação teórica do trabalho, que permeia todo o texto, como deve ser.

Os autores mostram as dificuldades ao buscar fontes bibliográficas para a pesquisa, tendo de recorrer a fontes oficiais como a Biblioteca Nacional, publicações esparsas e não específicas, e depoimentos de pessoas que conviveram no espaço traçado da ferrovia. Dividem a História da ferrovia em três períodos; da fundação em 1881 até 1911, que consolidou a maior parte do traçado da ferrovia;  de 1912 a 1935, marcando avanços e retrocessos  com o arrendamento por empresas estrangeiras; e por fim, a fase da administração  pública; de 1936 a 1966; que marcou a decadência da ferrovia devido à falta de investimentos, não sendo as ferrovias prioridade do governo na época.  Entram em detalhes sobre o funcionamento da ferrovia no transporte de passageiros e cargas. Mostram os problemas de horário, conforto e segurança. Traçam os roteiros entre as principais estações, sendo que em Nova Viçosa, local que muito me interessa, existiram duas estacões: Helvécia e Argollo. Citam entrevistas com algumas pessoas que conviveram com o dia a dia da ferrovia.

O engenheiro baiano Miguel de Teive e Argollo foi o idealizador e iniciador da obra da Ferrovia Bahia Minas. Era ambicioso, portanto utilizou a ferrovia para outros investimentos. A construção da ferrovia demandou recursos particulares e do Estado de Minas Gerais, pois os contratos raramente eram cumpridos. Houve inclusive, greves de trabalhadores ferroviários pelo não recebimento de seus salários, quando greves eram raras na época. O texto é detalhista quanto a informações legais, citando leis e acordos, cumpridos e descumpridos. Mostra as condições precárias em que os trabalhadores exerciam suas tarefas, suas longas jornadas de 12 horas diárias, além do enfrentamento com indígenas. Os depoimentos colhidos dependiam das relações que as pessoas tinham com a empresa, como relatos de trabalhadores da ferrovia e de viajantes.

O capítulo 2 é pródigo quanto à gestão da Ferrovia Bahia Minas, tanto pelo capital particular quanto pelo poder público de Minas, Bahia e Federal. Fazem, os autores, uma linha de tempo dessa evolução administrativa da ferrovia. Sobra espaço para um pouco de poesia e música sobre o fim da ferrovia, com músicas de Milton Nascimento e Fernando Brant, além da presença do Grupo Corpo de BH. Vislumbram a possibilidade de Minas ter um mar, como disse Brant: "é apenas um fiapo no mapa(...)". Tinham documentos, mas não tinham a posse. A Ferrovia Bahia Minas enfrentou várias  dificuldades,  principalmente. devido a uma tecnologia atrasada; que prejudicava os ferroviários e os viajantes, sendo que esta situação provocava vários acidentes, inclusive com vitimas fatais. Esta realidade foi constante desde sua criação em 1881 até sua extinção em 1966, ou seja, em todas as gestões. Segue o texto analisando a questão do transporte de pessoas e cargas nos vários períodos de funcionamento da ferrovia e suas gestões que pecaram pela ineficiência para a solução dos problemas apresentados. Uma questão importante apresentada no capítulo 2 foi a falta de envolvimento político e sindical em defesa da permanência da ferrovia, por isso não houve dificuldades para o seu encerramento em 1966, apenas choros e lamentos da população.

O capítulo 3 é puro sentimento de presenças/ausências/alegrias e sofrimentos. Estas relações são visíveis e ocultas nos depoimentos dos atores do momento do sonho e decepção da ferrovia em seu espaço-tempo. E para ilustrar melhor, os autores utilizam-se da literatura e das músicas afins, que consolidam a prática vivenciada pelos heróis ferroviarios em imagens imaginadas por seus criadores, que são vidas e martírio. Da banana à madeira. Do afeto à sobrevivência desumana. Neste capítulo são utilizadas algumas entrevistas de pessoas que viveram a realidade da ferrovia, como trabalhadores e usuários do serviço ferroviário. As entrevistas são percebidas pelo que explicitam e o que estão nas entrelinhas como o pertencimento à realidade vivenciada. Existe uma valorização do trabalhador da empresa, como um privilegiado, possuindo hospital para seu atendimento, mesmo que contraditóriamente, seu recrutamento tenha sido sem nenhum critério.










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