quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Leituras Multidisciplinares sobre a Estrada de Ferro Bahia e Minas

 


Apresentação

Fiquei sabendo da existência desta Estrada de Ferro quando visitei o Museu do Professor Luís em Nova Viçosa (BA). Seu museu possui várias relíquias antigas como máquinas de costura, ferramentas, retratos etc. É um museu pouco conhecido na cidade. Algumas escolas o visitam, mas não consta da Programação Cultural da cidade por falta de divulgação. Ele se localiza em um amplo espaço em cima de sua casa. Foi nesta visita que me deparei com um quadro de uma das Estações da Ferrovia Bahia e Minas. O Professor Luís me deu algumas informações sobre a ferrovia. A partir daí passei a me interessar pelo assunto. Descobri mais informações no livro Retrato Histórico de Nova Viçosa, da Doutora Jean Albuquerque. Posteriormente publiquei um pequeno livro de crônicas sobre a cidade no qual coloco a Estrada de Ferro em uma cronologia da História da cidade. E agora, com muita surpresa, tive acesso a este maravilhoso livro, através de meu cunhado e amigo, Rogério Lana Figueiredo, pois sabendo de meu envolvimento com a cidade de Nova Viçosa, que fazia parte do traçado dos trilhos da Ferrovia, me enviou cópia do e-book título da resenha, e que tem como co-autor seu primo, Sérgio Lana, que conheci criança.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

A Direita no Hospício da Democracia e a Ditadura do Amor - Paulo Henrique Araújo

 

A Direita no Hospício da Democracia e a Ditadura do Amor
Paulo Henrique Araújo

Introdução
Já no Prefácio, Flávio Gordon, nos dá uma visão geral do tema do livro, ou seja, as esquerdas, ao longo da História só se implantaram pelo poder da força e da violência contra a população, e cita os exemplos de Hitler, Stálin e Lênin. Esta informação deixa o povo brasileiro preocupado quando vivemos uma ditadura escancarada da esquerda, mas nunca assumida, disfarçada. O povo não sabe se tem esperança de um retorno à democracia, ou se seria melhor sair do país (pra quem pode) e abandonar nossas origens. Alguns já fugiram para os Estados Unidos, Europa, e outros estão presos ou morreram. Daí o dilema que vivemos.

Desenvolvimento
O autor mostra como a esquerda lê apenas com a emoção. Daí a impossibilidade do debate. E cita um pequeno texto de Ronald Reagan. Mostra o autor que a esquerda se infiltra nas instituições e, ao invés de perder o combate, se transforma com variados nomes. No Brasil evitam usar o nome Comunismo, tão desgastado historicamente.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Foro de São Paulo e a Pátria Grande - Paulo Henrique Araújo



 Introdução

Nas "introduções" ficam claros alguns assuntos que interessam ao autor: a visão do que é o Foro de São Paulo, que no início achavam que não existia, depois passaram a menosprezar seu poder, e finalmente, que o Foro de São Paulo existe; o olhar sobre o jornalismo de informação, que conforme o texto já não existe mais, pois toda notícia já sai para a população com seus devidos ajustes feitos pelos profissionais da imprensa a serviço dos poderosos; e conforme Olavo de Carvalho, o que é importante no Foro de São não são as Assembleias, mas o que se decide nas conversas informais dos bastidores, das quais saem as decisões sobre a vida dos países no mundo. Mostra o autor como as esquerdas estão organizadas no mundo em grupos de representantes de vários países. Para caracterizar o projeto das esquerdas cita um trecho de um romance russo do século XIX. Um caos social previsto por Lênin.


Antecedentes do Foro de São Paulo

No primeiro capítulo o autor busca as origens históricas e mais remotas do Foro de São Paulo.  Identifica suas origens nas lutas do século XIX e suas ideologias. Mostra que a origem da expressão  "Pátria Grande" surge em uma publicação do jornalista argentino Manuel Ugarte em 1924, afirmando também que esta ideia ainda mais remota vem da ação política e militar de Simón Bolívar. Depois de muitas informações passa a explicar a Luta de Classes e o Materialismo Histórico, base teórica do Marxismo, que norteia todo o Foro de São Paulo. Cita textos de vários autores sobre a teoria marxista, entre eles Darcy Ribeiro, o próprio Marx, e até o Papa Pio XII. Sob a ótica do marxismo só com a eliminação da propriedade privada e da luta de classes torna-se possível a criação de uma sociedade sem classes sociais, ou seja, o fim da sociedade ocidental e sua história. E para isto, adota a teoria do Materialismo Histórico; aparato técnico versus relações de produção. Termina o capítulo mostrando as bases para a compreensão do estudo do livro; principalmente os antecedentes da formação da Pátria Grande, em que alguns nomes são importantes como Darcy Ribeiro, Leonel Brizola e João Goulart, no Brasil, além da Constituição de 1988, que já trazia em seu texto uma visão da unidade política da América Latina.

Antes de iniciar a exposição dos conflitos ocorridos na década de 1960, a partir da Revolução Cubana, o autor faz uma análise do modo de atuar dos partidos de esquerda, especialmente os comunistas e socialistas. Mostra a diferença da prática dos partidos democráticos e dos partidos de esquerda. Os democráticos buscam um mandato definido pelas eleições, enquanto os de esquerda usam o discurso das eleições para implantar gradativamente seu poder permanente, e para isto utilizam de partidos que têm alguma afinidade com sua visão de poder, no Brasil o PT é o principal, os auxiliares são o PSDB, o PSB, o PC do B, o PSOL e o Cidadania, outros também fazem parte da manobra comunista, como o PSD e o PFL (União Brasil), que são chamados de "Companheiros de Viagem". A seguir o autor relata os confrontos na América Latina a partir de Cuba, logo após o ano de 1959. Fidel Castro invade pequenos países, mas sem conseguir muito êxito. Até a própria União Soviética não via em Fidel um comunista, mas apenas um aventureiro, por isso, não deu muito apoio no início de seu governo, pois o líder tinha um temperamento difícil. O autor mostra que ainda na década de 1960 existiram organizações com o perfil e ideias do Foro de São Paulo. A Organização Tri-Continental, criada por Fidel Castro, e a OLAS (Organização Latino-americana de Solidariedade), criada por Allende. Destaca também a capacidade de mudança do discurso comunista ao longo do tempo sem provocar conflitos ou ruptura de sua base. Talvez por combater sempre o domínio capitalista no mundo.

Na década de 1970 ocorrem mudanças significativas na organização e estratégia para expandir a revolução socialista cubana para os países da América Latina, sendo destaque a criação de um centro de treinamento de líderes de vários países em Cuba, com uma estrutura de alto nível para acolher os participantes, inclusive 11 do Brasil. Destaque para a Revolução Sandinista na Nicarágua. 

Na década de 1980 o autor faz um estudo sobre a relação da Teologia da Libertação com as ações do PT e das principais lideranças Socialistas da época como Daniel Ortega, Fidel Castro, Lula, Leonardo Boff, Frei Betto e outros. Além da estratégia da Igreja Católica para arrebanhar seguidores para a prática socialista, principalmente as Comunidades Eclesiais de Base, que com o PT nos governos foram descartadas até hoje. Vivi este momento na época, mas sem conhecimento dessa realidade, e jamais imaginar que a Teologia da Libertação teve sua origem ainda na década de 1930 na Europa. Continuando o estudo da década de 1980 sobre os antecedentes do Foro de São Paulo, o autor mostra, em detalhes, como ocorreu a aproximação entre Cuba, o narcotráfico e o terrorismo. O dinheiro arrecadado era usado para financiar grupos revolucionários em toda a América Latina. 

O Foro de São Paulo

O Foro de São Paulo é o resultado concreto da decadência do Comunismo Soviético, e consequentemente da influência de suas ideias e práticas nos outros continentes, pois o marxismo sempre teve como característica principal sua expansão pelo mundo para acabar com o domínio do capitalismo. O Brasil foi escolhido como o foco irradiador e substituto da União Soviética, primeiro na América Latina, pois já tinha fortes relações com Cuba através do PT e de membros da Igreja Católica, principalmente Frei Betto e Dom Paulo Evaristo Ars, inclusive tiveram reuniões em Itaici sede da CNBB (SP), com a cúpula do Partido Comunista Cubano e membros do clero, antes da eleição de 1988.

No início o encontro não tinha a intenção de virar o Foro de São Paulo, como afirma o autor, textualmente: "O Encontro de três dias animou os participantes, que decidiram pela criação do Foro de discussões políticas, ao contrário do que tinha sido declarado na convocatória para o evento." (pág. 130).

A seguir o autor dá informações importantes sobre as lideranças "comunistas" na América Latina, principalmente sobre Fidel Castro e Hugo Chaves, destacando que Lula nunca foi considerado um comunista, nem pelo PT, conforme já informado no livro A Mosca Azul, de Frei Betto. Em conversa do religioso com Fidel Castro, o líder cubano nunca viu em Lula um líder comunista. Vale lembrar, que mesmo nos dois mandatos de Lula na Presidência do Brasil, ele não ofereceu ajuda a grupos revolucionários da América Latina, apenas ao MST no Brasil.

O autor dedica um capítulo inteiro sobre as FARC e suas relações com o Foro de São Paulo e o Brasil, principalmente na figura de Lula e do PT. Utiliza ampla documentação inédita sobre os assuntos tratados, inclusive uma longa declaração das FARC de apoio ao Foro de São Paulo. Seguindo suas informações e análises, o livro foca nas relações entre o primeiro governo Lula e os países que compõem o Foro de São Paulo, especialmente a Venezuela e a Bolívia. Mostra o apoio financeiro dado a estes países, e sem nenhum retorno para o país. A esquerda, até 2011, toma o poder em 14 países da América Latina. Ressalta que a Direita no Brasil está atrasada em 35 anos e aponta a solução para sua recuperação: "Uma organização intelectual, partidária e, acima de tudo, de valores comuns, é o que dará sustentação para ações políticas que possam trazer frutos nesta batalha." (Pág. 177). Esta, conforme o autor, é a solução para combater o Foro de São Paulo, e não só o processo eleitoral.

Sobre o "Mais Médicos", o autor dedica também um capítulo. Mostra a farsa do trabalho, de formação e da remuneração dos médicos. Com ampla documentação e depoimentos revela como era a formação dos médicos em Cuba, ou seja, com um currículo mínimo, para um atendimento que interessava ao governo cubano, portanto não conseguiam revalidar seus diplomas no Brasil. A Presidente Dilma resolveu este problema tirando a necessidade de revalidar os diplomas. Do salário dos médicos era retirado até 90%, que eram enviados para o governo de Cuba, além do controle de suas atuações no Brasil, para o exercício da função. Os médicos cubanos não podiam trazer suas famílias, que ficavam reféns do governo castrista. Outros países também "colaboraram" com Cuba com a iniciativa, até a Itália participou da farsa. Antes do início do governo Bolsonaro, Cuba retirou os médicos do Brasil. Agora a Colômbia é o foco de estudo com as idas e vindas dos participantes dos governos até o início da década de 20 do ano 2000. As FARC continuam sendo o motivo maior de preocupação de todos os governos.

A Operação Lava-Jato e a construção do Porto Mariel em Cuba, são estudados pelo autor como instrumentos para financiar a revolução comunista no mundo, pois suas propinas são utilizadas para garantir a eleição de candidatos do Foro de São Paulo, e não apenas fraudes para enriquecimento ilícito, como a maioria pensa, daí a afirmativa de Lula de que é "O homem mais honesto do mundo." Tudo amplamente documentado. Na crise do petróleo venezuelano, Maduro recebe ajuda de Putin e de Lula. O Foro de São Paulo virou a instância de socorro aos países autoritários (leia-se comunistas), por parte de alguns países como a Rússia e o Brasil. E a violência na Venezuela é negada por Lula com suas doentias "narrativas". O autor cita o nome e uma pequena biografia dos mortos nas manifestações de rua, geralmente jovens, além de depoimentos de quem viveu os fatos.

Os fatos da história recente na América Latina são tratados no livro, decisão que facilita a revisão, e até o conhecimento pelo leitor do que tem acontecido em nosso continente, fatos que a mídia tradicional, muitas vezes, não divulga. Começa pela Argentina, e fica notória a busca do controle do Judiciário por parte de alguns governos de esquerda; sabendo-se que este controle faz parte da agenda do Foro de São Paulo. No Brasil acontece o inverso; o Judiciário controla o Poder Executivo. Quanto ao governo Dilma, o autor analisa o conjunto dos governos petistas por sua péssima gestão. Sempre envolvidos em corrupção. A seguir o autor mostra como a eleição de Trump marcou o início da derrocada esquerdista na América Latina, citando, inclusive, os Presidentes eleitos em cada país. Evo Morales é obrigado a renunciar em 10 de novembro de 2019, do governo da Bolívia, em sua tentativa de continuar no cargo (eternamente). As Forças Armadas agem para sua renúncia.

O renascimento do Foro de São Paulo tem como primeiro impulso a situação da Venezuela. Neste processo a ação da Rússia é fundamental, além da omissão dos militares brasileiros. Maduro volta ao poder quando já estava saindo da Venezuela em fuga para Cuba, mas Putin ofereceu ajuda imediata para sua permanência, e novamente foi instalada a Ditadura. No Brasil, a prisão de Lula é motivo de ações do Foro de São Paulo, inclusive com visita de governantes estrangeiros à prisão do ex-presidente. Na Argentina a esquerda continua influenciando todos os governos, reafirmando as decisões do Foro de São Paulo. Na Bolívia a "receita" do Foro de São Paulo é aplicada na íntegra. Veja os motivos da prisão da ex-presidenta! Retrato falado de Jair Bolsonaro no Brasil. Agora é a vez da Colômbia com suas narrativas mentirosas de governo, copiadas do Foro de São Paulo. No Chile foi a mesma tentativa de se implantar uma ditadura com nome de democracia através de uma nova Constituição. Mas o povo reagiu heroicamente. Sobre Cuba, a farsa e a violência física e jurídica dominam.

Com a "vitória" de Lula nas eleições de 2022, o Foro de São Paulo toma fôlego, e maduro vira a estrela maior da esquerda na América Latina. A partir da sua eleição, Lula faz vários acordos de cooperação com vários partidos comunistas no mundo. As demais informações são do conhecimento público pela Internet, como o vice de Lula, em solenidade no Irã. No Peru o Foro de São Paulo é obrigado a interferir devido ao péssimo governo de um de seus representantes. Até Evo Morales (ex-presidente da Bolívia) participou dos conflitos que terminaram com a posse da vice-presidente. Para a realização do Foro de São Paulo em Brasília, depois da eleição de Lula, houve toda uma preparação em outros países para que o evento transcorresse normalmente. Em defesa dos países esquerdistas, os palestrantes nunca citam os crimes cometidos por seus apadrinhados. Como disse o autor, mudando o tom da conversa: "O projeto de Pátria Grande não existe,..." (pág. 324). Eu também, em tom de ironia, afirmo: "Nunca existiu Comunismo no mundo", ideologia que Lula passou a defender.

Na reunião do Foro de São Paulo realizada em Brasília, logo após Lula assumir o poder, o livro aponta algumas diretrizes apontadas pelos líderes do encontro, mostrando as principais pautas para combater os governos chamados de "Direita". Nos discursos bem elaborados, mostram que apenas a esquerda está certa em tudo, e que os demais governos fabricam discursos para enganar o povo. Mostra o texto, como o MST está espalhado pela América Latina em sua prática de desestruturar o Capitalismo. Em texto de Olavo de Carvalho, ele mostra que estes discursos são apenas formalidades, pois as decisões para controlar os países acontecem nos corredores do encontro. No geral, o Foro de São Paulo foi um desastre para Lula ao defender Maduro, pois sofreu graves contestações ao seu discurso de democracia na Venezuela. A esquerda nunca assume seus pecados, mas os documentos de instituições sérias não mentem sobre suas atrocidades contra seus cidadãos.

Nas conturbadas eleições na Venezuela, Maduro usa de todos os artifícios para continuar no poder. As fraudes são permanentes, mas mesmo assim, Rússia e China sempre dão apoio. O Brasil, através de Lula e o PT dão apoios ambíguos em notas oficiais. E o Foro de São Paulo fica cada vez mais dividido com os apoios e restrições à ditadura de Maduro. E para encerrar, o autor afirma que mesmo com as divergências constantes entre as lideranças do Foro de São Paulo, este continua poderoso, pois as esquerdas esquecem as divergências e continuam com novas estratégias para combater a classe conservadora no continente latino-americano, mesmo que os governos de esquerda sofram alternância no poder. A questão para sua superação é longa e trabalhosa, pois exige a formação de uma nova cultura conservadora em que seus valores sejam defendidos com consciência e empenho intelectual de uma população com novas lideranças, conclusão mesclada de ideias do autor e minhas. Nos apêndices (VII). O autor entra em detalhes sobre a história e a prática dos grupos revolucionários da América Latina e a importância do Foro de São Paulo neste processo. Interessante notar como estes grupos atingem o seu auge, e se dissolvem entrando para a legalidade, e os mais radicais criam novos grupos ou entram para grupos  já existentes. Portanto não existe uma unidade ideológica dentro destes grupos. Lembro de um amigo meu me combatendo quando disse a ele que conforme Frei Betto em seu livro  A Mosca Azul; que o maior erro do PT foi abandonar a base. Ele me respondeu: "A base estava dividida." Mas na hora de votar possuem unidade, pois são convocados para votar.

Recomendo o livro para uma profunda reflexão política através das muitas informações que contém o livro de nossa história recente, e análises do autor/historiador.

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

O Modo Petista de Governar - Organizador: Jorge Bittar

 


Introdução
O livro é uma produção coletiva, como é informado em seu início. Nas orelhas do livro, através de alguns pequenos textos, os autores já dão uma visão do projeto petista de governar. Algumas características já levam para o conteúdo do texto, como a participação popular nas ações do governo; a existência de um governo sem privatizações, que na opinião dos autores levou à corrupção e ao clientelismo dos governos anteriores; uma nova relação entre os partidos e o governo, deixando este de ter poder sobre a composição dos partidos na criação de apoios políticos. No período, início da década de 1990, o livro faz uma avaliação dos governos das prefeituras com prefeitos eleitos pelo Partido dos Trabalhadores (PT). O atual Presidente, Lula da Silva, faz a apresentação do livro, reforçando os temas citados acima. No Prefácio, Jorge Bittar faz um leve comentário sobre a situação financeira das prefeituras assumidas pelo PT, pois as mesmas receberam os cofres vazios; mas com o tempo e experiência conseguiram fazer bons governos. Em minha opinião, havia uma expectativa muito grande diante dos novos governos, fator que favoreceu um empenho maior dos novos eleitos. O autor não cita, mas a partir da Constituição de 1988, chamada de municipalista, houve uma transferência maior de receitas para todos os municípios do país. Daí a necessidade de bons gestores, como em época de poucos recursos.

Desenvolvimento
No início do livro, já existe a defesa confessa da implantação do Socialismo em um processo lento, sendo esta a solução para combater o sistema capitalista de governo. Reconhecem a inexperiência dos novos gestores para se adaptaram às demandas do governo. Percebem que a esperança de melhorias imediatas pela população não foi alcançada, ou seja, admitem erros de gestão, coisa que os governos petistas atuais nunca assumem. As instituições políticas capitalistas devem ser alteradas, e para isto criam a Secretaria Nacional de Assuntos Institucionais, para se buscar melhores resultados na gestão municipal. O texto defende um Socialismo Democrático que nunca aconteceu ao longo da História. Realça que confundem Socialismo com Estatização. Defende um governo em que a participação popular é seu maior fundamento, e desta prática irá surgir o controle do Estado pela sociedade, além da crítica ao Estado mínimo, criticando a confusão entre poder público e estatal. O texto é bastante teórico, mas entende-se suas principais apostas. Acreditam no controle social sobre as grandes empresas, como a Usiminas; situação que nunca aconteceu. O livro dedica um texto específico sobre a participação popular no governo municipal, em minha opinião sua principal meta. Participei do Conselho Municipal de Educação de Ipatinga, e percebi que os Conselhos foram formas enganosas de gestão, pois tinham a função principal (implícita, é claro, de legitimar decisões do governo). Consequentemente, estes Conselhos, com o tempo, desapareceram. No início já levavam os Projetos prontos só para a Assembleia escolher o mais viável para a cidade, especialmente no Conselho de Orçamento. Cada Secretaria apresentava o seu projeto para avaliação. Hoje até a Direita adota esta prática para enganar o povo, e realizam as obras que lhes interessam politicamente.

Defende, o documento petista, a inversão de valores na gestão dos tributos, ou seja, a criação de um Fundo Público, que vá garantir o aumento de impostos, administrado pelo povo, e com aplicações prioritárias em regiões periféricas, mas sem esquecer as outras áreas da cidade; o oposto do governo neoliberal, que defende um Estado mínimo. Projeto, que, com certeza, o povo vai criar uma indisposição imediata, pois o Brasil já é campeão mundial na cobrança de impostos. Lembro que em Ipatinga a primeira luta da administração petista foi com o aumento exorbitante do IPTU, que depois de muita discussão e manifestação popular, o governo teve de voltar atrás. O texto sobre a administração municipal faz elogios aos concursos e aos planos de carreira, mas aponta problemas neste processo como o surgimento do corporativismo entre o funcionalismo, e sinaliza como solução a maior participação popular na superação dessa prática, que já é histórica nas administrações municipais desde a década de 1950. Segue a análise para um tipo novo de governo nas administrações municipais propondo alterações nas relações políticas, sociais e culturais, inclusive defende a reconstrução histórica destas relações no âmbito da nova gestão, principalmente sobre o domínio da classe dominante sobre a sociedade, sendo a participação popular seu instrumento mais importante. E por fim, nesta análise teórica, o autor mostra como ocorreu e como deve acontecer a relação partido/administração na condução das prefeituras petistas. Propõe uma "divisão harmoniosa" para a tomada de decisões entre o prefeito/partido/Legislativo e conselhos. Fato que não ocorreu nas primeiras gestões. Daí o livro surgir como um guia para as próximas eleições. Em Ipatinga, no início do governo, o prefeito participava de assembleias de trabalhadores metalúrgicos, tamanha era a indefinição dos papéis no governo.

Depois de uma análise mais teórica do projeto petista de governar, os autores passam a analisar questões mais específicas como a habitação, utilizando, como exemplo, as experiências das cidades em que o PT passou a governar. Mostram uma inversão prática na construção do projeto urbanístico das cidades, ou seja, descentralizando a ação governamental a partir de ações coletivas envolvendo os Conselhos e as Administrações, e respeitando as especificidades de cada município. Na área educacional, os autores fazem uma análise da situação vivida no Brasil nos governos chamados de "Conservadores". Prática pautada pelos interesses eleitoreiros, sem considerar a qualidade do ensino e a valorização dos professores. O PT apresenta um projeto oposto com a participação da comunidade através dos Conselhos Escolares, Conselho Municipal de Educação e da Eleição Direta para Diretor. Este quadro realmente aconteceu nas primeiras gestões, mas foi, com o tempo, perdendo este perfil e adotando a mesma política tradicional para a Educação. Criticam a aprovação automática nas primeiras séries para maquiar a reprovação, mas a implantam a partir do ano 2000. Condenam o pagamento de escolas particulares, pois a população já teria este direito pelo pagamento de muitos impostos, mas defendem o aumento de tributos para a implantação de um governo público.

Em relação ao transporte coletivo, o PT fez um grande esforço para baratear e qualificar o serviço para o usuário. Neste contexto, a questão da municipalização e Estatização é amplamente discutida. Vê, o PT, os sindicatos ligados a CUT e ao partido como cúmplices nas políticas municipais. E textualmente (página 82): "A tendência petista é de colocar os sindicatos como aliados  incondicionais do projeto das administrações populares, sobretudo se ligados à Central Única dos Trabalhadores e ao PT." Postura que nem sempre aconteceu, conforme o texto. Sobre as vias públicas são importantes as propostas apresentadas: democratização das decisões; participação do setor privado aliado ao poder público; privilegiar o transporte coletivo ao privado, como os automóveis. Mostra, o autor, que o problema viário é mais social que técnico, daí a essencialidade da participação popular no processo de construção de um trânsito mais humanizado. Quanto à alimentação, o projeto petista defende um controle maior dos municípios, em oposição ao trato liberal do mercado do governo federal. Mas não fala da criação de Cooperativas de Agricultores. No governo Lula a partir de 2003 foi criado o Ministério da Fome de curta duração.

Diferente das administrações anteriores, a Assistência Social passa a fazer parte do projeto petista de governo, e não somente em situações de emergências. Esta prática é muito variada, pois atinge diferentes personagens sociais. Para esta "Secretaria", o livro aponta as Cooperativas como instrumento de solução dos problemas econômicos dos mais necessitados. Sobre o Esporte e o Lazer, o texto faz um relato da situação antes e depois da chegada do PT às prefeituras municipais. Mostra os projetos na área, e compara com a política eleitoreira do esporte nas administrações anteriores. Acredita em um Socialismo Democrático que nunca ocorreu ao longo da História. Na Saúde, o texto defende a implantação do SUS (Sistema Único de Saúde), criado pela Constituição de 1988. O PT defende a municipalização do SUS, e faz o relato dos avanços alcançados em suas prefeituras com a implantação do Sistema Único de Saúde. Sobre o Saneamento o texto é muito claro sobre três questões: 1a: saneamento não dá voto; 2a: o PT não se preocupa com os votos, mas com o projeto; e 3a: a participação popular é indispensável. Sobre o Meio Ambiente, o autor faz um estudo bem sistematizado do projeto de governo, inclusive perpassando a pauta ambiental por todos os setores da administração, além de chamar a comunidade a participar nos encontros sobre o assunto. As escolas passaram a enfatizar a questão ambiental em sua programação curricular e extracurricular. Foi, com certeza, uma vitória petista em seus primeiros anos de governo; coisa que as administrações passadas negligenciaram em nome do capital.

Sobre a situação da mulher na sociedade, o autor faz uma reflexão do papel privado de sua ação na família, conforme o pensamento tradicional, e aponta avanços nas questões da mulher e sua inserção no ambiente público do trabalho social. Mostra como as Prefeituras petistas tem se organizado para implementar um novo estilo de governança em relação à presença da mulher na sociedade. Aponta, de forma específica, a discriminação social da mulher negra. Cita os órgãos criados pelo PT para enfrentar esta situação de discriminação contra mais da metade da população do país. Na área da Cultura, o texto é claro sobre o fracasso da ação cultural nas primeiras prefeituras conquistadas pelo partido, pois teve prefeito que nem criou um órgão cultural na administração. Reconhece, que a visão da cultura por parte da esquerda é mais complexa do que a realidade da direita já consolidada, e o PT parte de uma crítica para a construção de uma nova sociedade cultural. Contraditoriamente, o texto crítica uma ação governamental da cultura, que hoje o partido pratica no governo: "Não confundir serviço público de cultura com atendimento das 'demandas' das corporações das belas-artes que, na longa tradição brasileira, sempre tomaram o Estado como entidade beneficente que profissionaliza e subvenciona atividades privadas de grupos artísticos." (p. 206). Veja a Lei Rouanet!

Sobre a participação popular no governo petista, o texto é enfático em algumas questões importantes, que não foram resolvidas, e depois invertidas pela conjuntura ligada ao poder. Admite que a falta de experiência administrativa dificultou a implementação de ações que estavam dentro do projeto do partido. Admite que mesmo dentro dos governos havia divergência de opiniões nas ideias e práticas programadas. Admite que foram idealistas quanto à participação popular nas decisões de governo. Admite que as Comunidades Eclesiais de Base eram controladas verticalmente pela Igreja Católica. Admite que a população queria mais suas reivindicações atendidas do que uma formação política e ideológica condutora de práticas administrativas. Admite que os governos Socialistas ao longo da História praticaram um Socialismo de Estado. Admite que herdaram um quadro econômico das prefeituras incompatível com as reivindicações e promessas do partido. Admite um distanciamento entre o partido e a administração petista. Enfim, as enormes dificuldades produziram um partido e um governo muito distantes do planejamento original, pois teve que ir se reprogramando ao longo da caminhada. Talvez quisessem (inconscientemente) criar uma terceira via que não foi idealizada por ninguém, pois o Socialismo histórico jamais será democrático. Como disse, Gramsci: " A História ensina, mas não tem alunos."

O PT vê o desenvolvimento econômico de uma forma "municipalista", a partir das relações entre os agentes municipais envolvidos nas questões econômicas e sociais; entende que o desenvolvimento econômico de suas prefeituras, supera a visão tradicional de criar empresas e empregos, mas compreende uma ação mais ampla que busque qualidade de vida para a população, mas sem dispensar a contribuição dos governos estaduais e Federal. Cita, o texto, exemplo da prática de algumas cidades administradas pelo PT no período. Algumas com perfil agrícola, e outras industriais, como Ipatinga, que combateu a privatização da Usiminas. Sobre as Finanças e Orçamento enfatiza a criação dos Conselhos de Orçamento Popular como definidores de prioridades para a aplicação de verbas. Quanto ao Funcionalismo destaca o perfil herdado pelo Partido, o Plano de Cargos e Salários e a definição do Regime Jurídico a ser adotado pelas Prefeituras, sempre com a participação popular e dos sindicatos. No estudo sobre a Administração municipal, o texto é claro sobre as diferenças propostas em um projeto de esquerda Marxista e o Liberal vigente até a década de 1980. Parece-me um anacronismo esta defesa na época. Mostra que as administrações petistas buscam uma maior participação popular em todos os setores da gestão, inclusive na questão do orçamento, e não só nas questões de obras nos vários setores da cidade como a Educação, a Saúde e outros.

Para "concluir" o estudo, o autor analisa a primeiras administrações petistas nas pequenas cidades. Em sua visão foi um sucesso de governo, apesar da pouca ou nenhuma experiência de gestão pública dos eleitos. O ponto principal foi a ação dos representantes populares das Associações já existentes, que praticamente elegeram os novos governantes, cheios de esperanças de mudanças no quadro político das administrações populistas. Em Ipatinga, que não foi estudada no texto, por ser considerada uma cidade de grande porte; o governo seguiu as normas do "Modo Petista de Governar" com êxito, pois sou testemunha ocular do período. Houve ampla participação popular nas decisões da administração, principalmente na Educação, com ênfase, na implantação da Eleição Direta para Diretores de Escola.

domingo, 17 de agosto de 2025

Os Bispos Católicos e a Ditadura Militar Brasileira - A Visão da Espionagem - Paulo César Gomes




Introdução
Uma primeira motivação para a leitura do livro é a formação histórica do Historiador, pois faz parte da nova geração de pesquisadores que não sofreu as influências de seu tempo como eu. Como diz um provérbio árabe: "Temos mais influência do nosso tempo do que de nossos pais." Eu vivi o tempo da Ditadura Militar em minha cidade do interior de Minas Gerais, portanto sem muitas informações sobre o período histórico vivido pelo Brasil no período. Mesmo que eu tenha sido professor de História a partir da década de 1980, não tinha as informações necessárias para uma análise crítica do momento político da época. Cheguei a dar aulas de Educação Moral e Cívica e de OSPB (Organização Social e Política do Brasil), com um visão sócio-política da Ditadura Militar. Na Apresentação, o historiador, apresenta alguns detalhes importantes como a construção gradativa de oposição ao Regime Militar (1964-1985), por parte da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), mostrando que esta reação não teve unanimidade dentro da ala da Igreja Católica chamada de Progressista. Alguns bispos não deixaram de apoiar o Regime Militar, mesmo quando aumentou a crítica religiosa de combate à violência e censura imposta, inclusive com a perseguição de padres. Mostra que, historicamente, houve uma ligação forte dos governos com a Igreja Católica, daí ocorrer um certo cuidado dos militares ao combater os bispos, além do significado simbólico do poder da Igreja no meio da sociedade brasileira, por ser a denominação majoritária em número de seguidores em todo o país.

Desenvolvimento
O autor começa o estudo analisando as publicações de escritores sobre o papel da Igreja Católica face ao Regime Militar. Mostra que a Igreja nunca foi homogênea diante das posturas dos militares, e em toda sua história. Entre os próprios bispos chamados de progressistas haviam divergências de opiniões, além de bispos que mudaram de opinião a partir de sua própria visão dos fatos da época. Salienta o papel institucional da Igreja, que mesmo tendo seu papel ligado às questões sociais e políticas, não deixava que estas modificassem os fundamentos teológicos da instituição ao longo da história, ou seja, sua vocação para os caminhos da fé. Faz, o autor, uma evolução dos percursos da Igreja em sua história de relacionamento com o poder desde a Antiguidade, passando pelos períodos históricos. Identifica a Reforma Protestante como a fase em que a Igreja Católica perde sua unidade no mundo, além do surgimento de outras religiões. Analisa a ação do Papa Leão XIII em sua Encíclica Rerum Novarum, na qual faz críticas tanto ao Capitalismo, quanto ao Socialismo, colocando a Cristandade como terceira via. Vê a Encíclica de Leão XIII como o documento, talvez, mais importante da Igreja Católica sobre as questões sociais. Mostra que o papel do Papa na Igreja Católica, é principalmente político e de defensor da unidade da fé. E textualmente; "O papa é, pela tradição, o guia da política e o intérprete infalível da doutrina; já os bispos não são apenas os representantes do papa, mas também chefes da instituição católica." (pág. 22). Os bispos são considerados os sucessores dos apóstolos e responsáveis por santificar, ensinar  a doutrina e comandar suas comunidades.

A seguir, o autor passa a narrar a história da Igreja Católica desde o Período Colonial no Brasil. Mostra as relações de poder entre a Igreja e o governo português. Sendo que no início da colonização houve o predomínio do governo sobre o poder espiritual da Igreja, pois a mesma veio ao Brasil com a ajuda do rei de Portugal, portanto tinha o governo o direito da nomeação de padres e bispos. Com o tempo essas relações foram se modificando. Com a criação da CNBB, a Igreja se fortalece como instituição, mesmo que o autor afirme que a CNBB não é a mesma coisa que a Igreja, como as históricas Ordens Religiosas, também não o são. Com o golpe militar de 1964, a Igreja ficou ao lado do novo regime, pois tinham um inimigo em comum: o Comunismo. Com as perseguições e a censura, inclusive de padres, a CNBB passa a fazer oposição ao governo, tornando-se instrumento importante para a conquista da redemocratização do país. Realça, o autor, o papel do Papa Leão XIII e do Concílio Vaticano II para a preocupação social da Igreja. Nos primeiros anos do Regime Militar no Brasil, a CNBB ficou dividida entre o apoio ao golpe militar e a sua oposição por parte de alguns bispos. Pastorais importantes foram criadas no período como a Pastoral Operária, e também a Campanha da Fraternidade que existe até hoje para amenizar os sofrimentos do povo, especialmente, em sua origem, a população nordestina. Conforme o autor, a convivência entre a Igreja Católica e os governos instalados não deixou de existir, mesmo em episódios violentos contra padres.

A partir do período do Regime Militar chamado de "Anos de Chumbo", a CNBB é mais incisiva no combate à violência praticada pelos militares, mas condena também as ações terroristas das esquerdas. A Igreja e o governo criam uma Comissão Bipartite secreta para manter as boas relações entre as duas instituições. A violência praticada pelo regime chega até o Vaticano e a outros países, principalmente aos Estados Unidos. As massas ficam fora das decisões entre o governo e a CNBB. Segue o Autor, analisando as posturas dos Bispos da CNBB diante das atitudes dos militares no poder. Sendo Dom Hélder Câmara o mais incisivo no combate à ditadura, não só no Brasil como no exterior. Em um documento do Estado do Amazonas, os bispos são explícitos no combate ao Capitalismo, afirmando: "é preciso vencer o capitalismo." Não viam como vencer as desigualdades dentro do sistema capitalista, mas sem propor alternativas, e nem apontar para o Comunismo. Em quase todas as manifestações dos Bispos, existia a possibilidade da coexistência pacífica entre a Igreja e o Estado. Na década de 1970, o padre da nossa Paróquia, também sem se declarar comunista, afirmava que não adiantavam reformas sociais sem a mudança do sistema, e não bastava mudar o homem sem mudar o sistema. O autor não fala de Comunismo... ainda!

A partir da chamada Abertura Política no governo de Ernesto Geisel, a CNBB toma uma postura mais moderada de combate ao Regime Militar, apesar da censura e das tensões ainda existentes. Nasce, no período, o Partido dos Trabalhadores (PT), e assume o Vaticano, o Papa João Paulo II, declarado anticomunista, que condena, no Brasil, a Teologia da Libertação. Dom Pedro Casaldáliga  declara publicamente que utilizou as ideias marxistas para conhecer melhor o Capitalismo. O autor, em sua análise, mostra que não havia consenso nos chamados grupos "Progressistas" e "Conservadores" dentro da CNBB. Informa que esta classificação monolítica facilita o estudo, mas não é verdadeira, inclusive entre os nomes fortes nos dois grupos. Realça, que com todas as variações de posturas, a CNBB sempre conservou uma unidade religiosa ao lado de sua ação política. E que nunca abandonou sua relação histórica de convivência harmônica com os governos ao longo da História. Sempre soube manter este equilíbrio, mesmo que numa "corda bamba" permanente. Ao final do capítulo 1, o autor revela que a ação política da CNBB foi importante para manter os direitos individuais dos cidadãos e da democracia no país, inclusive com sua participação na Constituição de 1988.

A oposição ao Regime Militar, conforme o autor, atuou de duas formas: a radical, caracterizada por atos terroristas como assalto a bancos, sequestro de embaixador, etc.; e a moderada através da Igreja Católica, que sempre manteve um diálogo com o governo, e de outras instituições como a OAB e a ABI. Os radicais combatiam o Capitalismo como solução para resolver os problemas nacionais, e defendiam o Socialismo/Comunismo como alternativa de governo. Visão não compartilhada pelos moderados, pelo menos não explicitamente. Os moderados, em linhas gerais, queriam a volta da democracia. Mostra também que aos poucos estas formas de oposição foram combatidas com eficiência pelo governo e praticamente desapareceram. A maioria da população não participou da oposição diariamente, pois continuavam lutando pela sobrevivência. Eu participei da oposição ao Regime Militar de forma moderada através dos encontros da Igreja Católica em minha cidade. No trato sobre o aparato da repressão, o autor mostra, inclusive utilizando a opinião de outros historiadores, que não havia homogeneidade dentro das Forças Armadas, aliás, esta sendo utilizada pela primeira vez ao longo da história do Brasil, de opiniões e posturas entre os militares. A classificação simplória entre os chamados de "linha dura" e os outros mais flexíveis, não tem respaldo histórico. Analisa a repressão à luz dos governos Castelo Branco, Costa e Silva, Médici e Geisel. Segue fazendo uma exposição sobre os órgãos de segurança desde os tempos dos governos de Washington Luís, passando por Getúlio Vargas e se concretizando como um Ministério nos Governos Militares. Continua o autor, a esmiuçar o funcionamento dos órgãos de segurança do Regime Militar a partir de 1970, com o endurecimento da repressão aos chamados subversivos civis e militares, além da análise da oposição ao governo, tendo seu principal alvo o Partido Comunista. Reconhece que os organizadores dos relatórios da espionagem do Regime Militar eram de extrema competência, pois tinham o maior zelo na legalidade das ações.

Na última parte do livro, o historiador foca na espionagem do sistema de segurança do Regime Militar nas ações dos Bispos, citando que houve vigilância também sobre professores, jornalistas, trabalhadores, advogados e estudantes. Já em meados da década de 1960, começaram a investigar alguns Bispos, principalmente Dom Hélder Câmara, que estrategicamente fazia suas denúncias mais veementes no exterior, principalmente na Europa. Mesmo que no início do novo governo, tenha apoiado a "revolução". Interessante notar que os principais Bispos que combatiam o Regime Militar eram do Nordeste, inclusive se falou vagamente sobre a separação do Nordeste e Norte do resto do Brasil. As duas principais vertentes de combate partiram das zonas urbanas e dos campos. O autor apresenta vários documentos oficiais e fotografias do período estudado, inclusive textos na íntegra sobre a ação dos Bispos no Brasil e no exterior. Faz uma relação dos Bispos considerados Socialistas pelo governo, na lista consta o Bispo Marcos Antônio Noronha, da Diocese de Itabira (MG). Desta Diocese participava todo o Vale do Aço. Participei da comunidade católica neste período. Das organizações religiosas de leigos, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), são citadas nos relatórios militares como grupos de esquerda. D. Paulo Evaristo Ars entra em cena em 1972, e não sai mais, mesmo que Dom Hélder Câmara seja a figura religiosa mais visada pelo governo. Mostra, o autor, como as relações entre a Igreja e o Estado ocorriam e suas sutilezas. Mas a Igreja sempre foi a mais vigiada, e o principal canal de reivindicações da sociedade.

O livro nos introduz em questões que sempre foram tratadas de forma superficial, principalmente sobre a chamada "ameaça comunista" de combate ao governo. Conforme o autor, o Comunismo estava infiltrado em todas as instituições sociais, políticas e religiosas como a OAB, a ABI a CNBB e o MDB, na visão da Comunidade de Inteligência. Na escola aprendemos que o MDB, por exemplo, era uma "oposição consentida" para legitimar as decisões do governo, e não o  abrigo de um foco comunista, principalmente da ala mais jovem. O combate à oposição dos religiosos era mais cuidadosa, representada pelo simbolismo do poder religioso diante da população, por isto, sua ação foi mais consistente através do Bispos no Brasil e no exterior. Tentaram até impedir seus passaportes, mas desistiram pelos "custos" políticos. Fato novo é a presença de Protestantes na oposição ao Regime Militar, inclusive é citado um pastor da Igreja Pentecostal Brasil para Cristo, sendo que não existe nenhum estudo sobre o assunto. E a presença de padres católicos também é citada na oposição e organização de movimentos de estudantes e trabalhadores contra a Ditadura, e não apenas de Bispos. Em nossa região alguns padres tiveram de responder processos no Tribunal Militar de Juiz de Fora (MG), mas não existindo nenhuma condenação por subversão. Nesta época eu era estudante no Ensino fundamental.

Sobre a questão fundiária, o Bispo Dom Pedro Casaldáliga, é o mais visado por suas intervenções incisivas em defesa dos posseiros e índios. A ação dos órgãos de informações do governo são limitadas pelo Poder da Igreja Católica frente à população e o governo. Os dois lados - o governo e a Igreja -, prezam pela "harmonia" histórica entre os poderes. A desinformação não deixa de existir dos dois lados: Bispos e governo, sem retaliações. Durante o final do Regime Militar, a questão fundiária foi dominante. Lembro de uma reunião que tivemos sobre a situação do campo na Amazônia, com padres da região vindo para nossa cidade para explicar o que acontecia no Norte do país sobre a relação governo/fazendeiros/posseiros. Era claramente a defesa dos últimos. E acreditávamos, sem dúvida, em seus direitos. Afinal, éramos Igreja. O historiador consegue ser imparcial em todas as questões tratadas, e ser atendo unicamente às informações documentais para sua análise. Encerra o livro mostrando que nunca houve unanimidade no combate ao Regime Militar por parte da população brasileira, e nem em relação à Igreja Católica; e quase uma cumplicidade entre os militares e a CNBB, devido ao simbolismo representado pelo ideário de maior nação católica do mundo conferido ao Brasil.

Vale a pena a leitura integral do livro pelas vastas informações documentais contidas, principalmente sobre os órgãos de segurança do governo militar.

 

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Esquerdismo, doença infantil do comunismo - Vladímir Ilitch Lênin


 

Introdução

Na Apresentação do livro, é explicado todo o processo de sua construção, pois foi na verdade, um texto de abertura da II Internacional Comunista acontecida em 1920. Lênin acompanhou toda sua produção na gráfica. A intenção era criar diretrizes para a expansão do comunismo para o mundo, logo trata de suas estratégias e táticas para tomar o poder mundial - uma espécie de "Bíblia" para orientação a seus seguidores em todos os países. Mas logo de início já perceberam que os trabalhadores não aderiram ao Comunismo, como esperavam e afirma o texto; mesmo que haja alguma discordância, o que é normal; "As expectativas que a liderança bolchevique tinha depositado no proletariado europeu de que, cumprindo sua 'missão histórica', ele correria para ajudar seus camaradas russos em dificuldade, sofreram um grande revés." (pág. 11). A Apresentação do livro é longa, expondo vários subtítulos para o desenvolvimento do pensamento de Lênin sobre a construção e evolução do Comunismo, realçando que a intenção de Lênin era a expansão do Comunismo pelo mundo, e para isto teria que fazer alianças com setores, para o que ele chama de "pequena burguesia", insistindo que os líderes da revolução teriam de fazer uma análise de conjuntura para a construção de acordos, e como o livro foi divulgado no Brasil em 2025, cita os casos de Cuba e Venezuela, onde o chamado imperialismo americano faz suas intervenções. Lênin, fazia críticas de suas próprias ideias, por isso, após a publicação de suas condições para a expansão da revolução, afirmou que, elas poderiam não realizar o resultado esperado, pois eram "russas até a medula." Vê o Marxismo não como um dogma, mas um guia para a ação, adaptado a uma realidade prática, a chamada práxis, coisa que as esquerdas não faziam e nem fazem hoje em dia, partindo apenas de teorias cartesianas positivas. Daí, o "infantilismo" das esquerdas. Lênin era um estrategista nato, via os detalhes das condições sociais de sua época. Mostra que os comunistas deveriam observar cada brecha, ou indecisões, para infiltrarem com suas ideias. Hoje tentam fazer isto, infiltrando em todas as instituições das nações, até no Vaticano, mesmo que as circunstâncias sejam outras. Sobre os erros do Partido Comunista, Lênin aponta dois muito importantes para os dias atuais, praticados pelas esquerdas, principalmente pelo PT, no Brasil, ou seja, só fazer coligações com partidos de mesma ideologia, situação que tem se modificado, talvez como consequência deste erro ou da perda de credibilidade popular; e não aceitar críticas aos erros cometidos em sua gestão. Lênin afirma que os erros devem ser avaliados e corrigidos, e nunca negados. Os partidos de esquerda no Brasil querem ser puros, livres de corrupção e outros males, e que apenas os partidos de direita promovem estes desvios. Quando questionados, desviam o assunto para aquilo que fizeram de melhor, mesmo que estas ações  tenham sido um "tiro no pé", pois punem o próprio governo. Lênin vê a expansão do Comunismo como um processo em que o debate com a população se faça para conseguir seu apoio, e não por imposição governamental. Mas como sabemos impôs o Comunismo na Rússia praticando ampla violência contra seus opositores. Mas suas lições são importantes para os partidos de esquerda hoje, que são considerados infantis por Lênin, pois não conhecem a teoria e a prática comunistas; esquecem do estudo da realidade nacional e internacional para uma prática que provoque a tomada do poder por uma vanguarda e as massas populares conscientes.

Desenvolvimento

Já nos primeiros capítulos, Lênin insiste na Ditadura do Proletariado, que foi uma expressão criada por Marx, em uma de suas cartas. Nesta Ditadura do Proletariado aponta uma questão importante para o combate ao capitalismo e a burguesia: o fim das pequenas propriedades. Daí a origem das grandes Cooperativas agrícolas (Kolkhoses) e das fazendas estatais (Sovkhoses). Reforça que para a implantação desse novo governo, haverá muita luta, sofrimento, ação parlamentar e até terrorismo. Marca o início da luta partidária dos bolcheviques em 1903, gastando quinze anos para a implantação da revolução. Realça o poder do cizarismo e a persistência do partido nestes quinze anos, fator que nunca ocorreu ao longo da história. Revela a repetição do discurso, mas acha necessária esta prática. Mostra também que as lutas do partido são sempre diferentes em cada situação, logo exigem uma análise e estudo constantes de conjuntura. Lênin segue sua análise da situação política de sua época, num permanente elogio da ação e ideologia dos Bolcheviques, explica sua prática diferenciada dos demais partidos, dos quais dá vários nomes e significados, mas todos apontados como partidos reformistas e não revolucionários. Defende a prática dos Bolcheviques nos parlamentos, e de formas legais e ilegais para chegarem ao poder. Insiste na famosa luta de classes, em que os interesses são divergentes, e defende ostensivamente o domínio do governo pela classe trabalhadora. Informa que a luta pelo poder não é imediata, precisa de uma constante prática, pois 1917 só aconteceu por causa dos conflitos com o czarismo deste 1905, quando perderam a guerra, mas continuaram ativos após a derrota. E ficaram mais fortes após a violência praticada pelo governo contra os trabalhadores indefesos.

Segue Lênin, mostrando as divergências dentro e fora do partido bolchevique, na busca de uma sonhada "pureza" ideológica na política instalada após a Revolução de 1917. Mostra que os moderados, como os mencheviques, e outras facções, eram traidores da causa dos trabalhadores proletários. Entra em detalhes sobre o pensamento dessas correntes. Lênin, usa o exemplo do Comunismo na Alemanha para mostrar o infantilismo das esquerdas, pois existiam muitas diferenças entre a teoria e a prática entre os seus membros, principalmente sobre os acordos com membros da burguesia parlamentar. Outro destaque é sobre o comando no regime comunista, se caberia às massas, que seria a Ditadura do Proletariado ou ficaria a carga do Partido Comunista, que dirigia as massas, que para Lênin estava dividida entre várias classes, e não em uma única classe, como era o desejo do Comunismo. E para se chegar ao fim da divisão de classes teria que acabar com o chamado e famoso corporativismo; lembro de quando começamos a militar na esquerda, em combate ao Regime Militar no Brasil (1964-1985), ainda na década de 1980, como o nosso sindicato falava de corporativismo, ou seja, criticava nossa defesa apenas dos direitos do professores, e não de todos os trabalhadores. Lênin mostra que este processo é lento; não é feito de um dia para o outro como queria nosso sindicato. E dentro desta linha critica os comunistas alemães que não aceitavam participar dos sindicatos reacionários e do Parlamento. Lênin entende que os comunistas deveriam participar de instituições capitalistas para introduzir ideias comunistas dentro delas. Afirma que os sindicatos têm origem no capitalismo, e realça sua importância histórica para garantir direitos trabalhistas, mas os vê como mecanismos típicos do capital, e que devem ser transformados, assim como as corporações para a eliminação das classes sociais. Um texto de Lênin, página 90, comenta sobre os erros cometidos pelos partidos: "A atitude de um partido político perante os seus erros é um dos testes mais importantes e mais seguros da seriedade desse partido e do cumprimento na prática das suas obrigações para com a sua classe e para com as massas trabalhadoras. Admitir abertamente os erros, descobrir as suas causas, analisar a situação que os originou e examinar atentamente os meios de os corrigir: é isto que caracteriza um partido sério, é nisso que consiste o cumprimento dos seus deveres, isto é, educar e instruir a classe, primeiro , e, depois, as massas." Uma lição para os partidos de esquerda no Brasil de hoje, e principalmente para o PT, que nunca admitiu seus erros.

Lênin faz duras críticas aos partidos comunistas alemães por resistirem a acordos e compromissos com outros partidos e instituições, e por isto são chamados de infantis, pois poderiam influenciar seus participantes com o ideal marxista. Ele explicita este pensamento no livro, páginas 106-107: "O erro constitui em se recusar a participar do Parlamento reacionário e burguês e dos sindicatos reacionários, o erro consistiu em múltiplas manifestações dessa doença infantil 'de esquerda' que agora veio à superfície (...)". No Brasil, a esquerda praticou esta infantilidade política da década de 1980 até a primeira década dos anos 2000. Segue o autor analisando os partidos de esquerda na Inglaterra, e suas adesões ou não a acordos com outras às instituições não comunistas, principalmente em relação ao Parlamento Inglês. Lênin termina o livro mostrando claramente a infantilidade das esquerdas ao insistir na construção do Comunismo imediatamente, e na falta de paciência em fazer os acordos necessárias para se infiltrar nas instituições levando a mensagem marxista de combate ao Capitalismo. Não vê as esquerdas como alternativa ao Capitalismo, mas sim o Comunismo construído integralmente por uma nova visão de sociedade, longe das relações democráticas da sociedade ocidental, e seja uma revolução mundial, e afirma: "(...) ... que existem todos os motivos para esperar que o movimento comunista internacional se cure rápida e completamente da doença infantil do comunismo 'de esquerda.' (pág. 139)". Vê os erros do imperialismo durante a I Guerra Mundial como o motivo não doutrinário capaz de impulsionar o comunismo no mundo. Lênin vislumbra o significado do Comunismo puro, e não infantil, ao afirmar que uma liderança deve doutrinar os trabalhadores para sua adesão ao novo regime, enfim, não existe a famosa Ditadura do Proletariado, mas a ditadura de uma liderança sobre toda a população mundial, a partir da Rússia. No Anexo, Lênin é explícito sobre o Partido Único que deve dominar todas as atividades sociais, políticas, econômicas e culturais em nível planetário, eliminando toda a história capitalista, que ele sempre chama de burguesa. No Apêndice Sobre a doença infantil do "esquerdismo" e o espírito pequeno-burguês, Lênin mostra os equívocos de análise de conjuntura das esquerdas e do comunismo de esquerda para a implantação do Comunismo em outros países, e na própria Rússia. Realça que devem utilizar a tecnologia do Capitalismo para a implantação de grandes indústrias na Rússia, e reconhece a inferioridade tecnológica de seu país em relação aos países dos grandes trustes.

Vale a pena ler o livro para se conhecer a evolução política internacional durante todo o século XX e início do XXI, sob a visão de um texto de Lênin escrito em 1920.


terça-feira, 20 de maio de 2025

A Mente Esquerdista - As causas psicológicas da loucura política - Dr. Lyle H. Rossiter


Introdução

No Prefácio, o autor já mostra o objetivo do livro: "Este livro é sobre a natureza humana e a liberdade humana, e a relação entre elas". A partir daí passa a narrar um pouco sobre a história da formação da nação americana do norte; realçando seus valores de liberdade, busca da dignidade humana e da sobrevivência, e da criação de leis que regulassem as ações entre as pessoas envolvidas. Mostra a diferença do pensamento socialista sobre a natureza humana; não respeitando suas liberdades e impondo um governo controlador, do qual todos dependem. Salienta que até o século XIX este sistema americano funcionou bem, mas o socialismo teve avanços a partir de todo o século XX e início do século XXI. Como é formado em Psiquiatria, destaca que este estudo também é campo de pesquisa da História, Antropologia e outras ciências sociais. Mas o conhecimento da mente humana é uma preocupação sua de longa data, daí sua intervenção. O autor utiliza, com certeza, para facilitar a leitura das 500 páginas do livro, de uma técnica interessante e útil em sua produção, fazendo capítulos curtos e com subtítulos em cada capítulo. Se você fizer uma leitura diária por capítulo, fica uma leitura bem leve e produtiva.

Desenvolvimento
Iniciando o estudo mostra que o ser humano é bipolar, certamente para utilizar uma linguagem da Psiquiatria; mostrando que o homem possui uma natureza humana e outra social, ou seja, precisa de relações interpessoais saudáveis e produtivas. E para ilustrar esta visão do ser humano ter uma duplicidade na formação, um lado individual e outro social, analisa, em uma linguagem totalmente compreensível e leve, o romance Robinson Crusoé, em que o personagem vive solitário em uma ilha e que neste ambiente, tem toda a liberdade individual, mesmo que tenha uma noção de valores, ou seja, do que é bom para ele, e aquilo que o prejudica. Neste espaço, Crusoé é o governo e o governado. Mas com a chegada de outro personagem, Sexta-feira, as relações interpessoais se modificam. Agora aparecem os limites na relação. Daí a origem das leis para normatizar as relações entre os indivíduos, criando limites para as ações individuais, que implica o respeito aos direitos da população. O autor mostra a função principal dos governos que é a proteção da liberdade individual dos cidadãos, sendo que os mesmos devem obedecer os direitos dos demais, mas geralmente, os governos terminam por cercear a liberdade individual dos cidadãos. Nos governos de esquerda não existe liberdade individual, pois a população passa a ser infantilizada por sua dependência da ajuda governamental. Na Esquerda a lei é o Governante, Ditador. Recentemente nosso Presidente falou que o Brasil deveria ser como a China, onde o Ditador fala e o povo obedece. E onde fica o sonho da democracia representativa, o Poder Legislativo, o Judiciário?

Continuando o estudo da Mente Esquerdista, mostra as origens naturais da formação do ser humano, em sua índole individual e social. Mostra que o homem só pode ter liberdade completa se viver sozinho, mas esta situação contraria sua própria natureza, pois necessita da convivência de outra pessoa para se conhecer e conviver. Volta ao exemplo de Crusoé e Sexta-Feira, pois com a chegada deste último, Crusoé perde sua liberdade absoluta, mas ganha em ajuda para melhorar sua vida com o apoio e trabalho do novo parceiro. Dá um novo exemplo, imaginando a chegada de mais 98 náufragos à ilha, formando uma comunidade de 100 pessoas. Assim as coisas se complicariam, pois seriam muitas individualidades ou naturezas, e mais novas relações interpessoais, logo seriam necessárias a criação de leis para normatizar a convivência. Mostra o que o autor chama de Regra de Ouro para com o outro, ou seja, "... respeite a outra pessoa como um ser consciente e soberano, como um sujeito independente intitulado ao mesmo tratamento positivo e às mesmas proteções emocionais e institucionais contra os danos físicos que você reivindica para si.mesmo." (pág. 35). Isto é a chamada empatia, você ter a sensibilidade para participar das emoções alheias; colocar-se no lugar do outro. O esquerdista não é capaz de sentir isto, pois só pensa em satisfazer seu egoísmo pessoal. É o que acontece com os governos socialistas, as pessoas são objetos da satisfação de seus governos. Inclusive Lênin afirma que para alcançar o poder e dominar o povo poderiam utilizar de meios lícitos e ilícitos, até a violência, ainda no início da Revolução Russa.

Segue o autor mostrando a origem das liberdades individuais a partir do Iluminismo, que deu início aos direitos individuais que conhecemos até hoje, principalmente a partir da divisão do poder em Executivo, Legislativo e Judiciário. Esta divisão garantiu que o cidadão fosse protegido pelas leis e do autoritarismo dos governos. Mostra que o ser humano ao nascer é totalmente dependente de seus pais, e a partir daí adquire conhecimentos e experiências que lhe garantam sua individualidade nas decisões e produções, passando a não mais depender dos adultos. Situação que as esquerdas não conseguem ver. Acreditam que o cidadão precisa dos governos para orientar suas decisões, ou seja, vê o trabalhador como uma criança, daí a expressão popular sobre os ditadores: "Pai dos Pobres". E sua origem infantil está na relação entre os pais e os filhos na infância. Em resumo, muitos adultos não superam a fase infantil de sua vida, e vivem na dependência de outras pessoas ou do Estado. E o Estado esquerdista adota uma política de manutenção desta ordem, ou seja, dominar todos os aspectos sociais da vida do cidadão. Defende, o autor, que os governos devem ser limitados em suas ações pelas demandas populares, logo estão a serviço da sociedade, garantindo sua liberdade, individualidade e propriedade.

O livro trata da questão do altruísmo existente nas pessoas de boa formação familiar, nas comunidades, e que deve ser garantido pelos governos democráticos, como uma função social primordial. Coisa que não acontece nos governos de esquerda, pois fazem propagandas afirmando que esta é uma missão dos funcionários especializados, mas distantes da realidade das comunidades. Pela infiltração das ideias esquerdistas em todos os setores da sociedade, inclusive nos governos de direita, vemos atualmente, e já há algum tempo, o desaparecimento das Associações de Moradores, tão atuantes a partir da década de 1980 do século passado. Criam-se, os governos, Secretarias de Assistência Social e outros órgãos para darem atendimento à população sem conheceram a sua realidade. O autor do livro mostra que o cidadão altruísta, ao ajudar seu semelhante, também se ajuda, e sua capacidade vira serviço para as pessoas assistidas. É a satisfação de seu ego a serviço de outrem, coisa que as esquerdas desvalorizam, pois só entendem as relações interpessoais como coletivizadas e controladas pelo Estado. O indivíduo não existe, só o coletivo controlado pelo governo. É trabalhado no livro a questão das escolhas que fazemos que dependem de nossa natureza inata e das influências sociais, aí entra a intervenção da classe política na formação de opinião. O esquerdismo faz esta prática de infiltração nas instituições desde a Revolução Russa de 1917 para formar a opinião da sociedade, principalmente das pessoas com orientação educacional deficitária, ou aos intelectuais visionários ou interesseiros. Como as experiências com animais, nós homens fazemos o mesmo, seguimos o objetivo que nos interessa. Sobre as escolhas, o autor é bem técnico no texto, utilizando, inclusive opiniões de outros autores.

Para se manter um Estado centralizado "cuidando de todas as necessidades do povo", necessário se faz um aumento permanente de impostos; o autor resvala nesta questão. Mas é enfático no controle do Estado sobre as ações, a individualidade e a criatividade do cidadão. No Brasil, tanto os governos de esquerda como os de direita são campeões em cobranças de impostos. Mas os de esquerda são mais impulsivos nestas taxas. Trabalhei por 16 anos sob um governo municipal de esquerda, e vi o aumento de impostos constantes além da criação de mecanismos para gerar impostos como a ampliação de radares rodoviários, além do aumento do IPTU. Para amenizar o texto, o autor utiliza a música My Way, interpretada por Frank Sinatra, que significa "Fiz do meu jeito" para mostrar a diferença entre um governo coletivista e um democrático, aliás nunca utiliza a palavra democracia para governos de esquerda. Em sua crítica fala que para o coletivista a música seria "Eu fiz da maneira do governo". Também fala sobre as famosas cotas existentes no Brasil da esquerda - lugar comum nos governos de esquerda. Evita utilizar a palavra democracia em todo o texto, prefere liberdade. A infância passa a fazer parte do estudo, pois na opinião do autor, sua formação a partir do nascimento dá origem a uma mente narcisista, mesmo que esta seja produtiva, e na criação de um adulto sem uma preocupação com o ambiente em que participa. Vai depender da educação recebida na família e em suas relações sociais, o surgimento de um adulto equilibrado e responsável ou uma pessoa dependente de um governo autoritário. O autor analisa a situação dos Estados Unidos a partir da grande influência da Esquerda nos governos. Mostra que a maior interferência ocorreu com a mudança da família, da religião e do uso da razão nas questões sociais, pois as mesmas passaram a ser controladas pelo Estado. Isto a partir do início do século XX até os dias atuais. E acreditar em Socialismo Democrático como sonhamos na década de 1980 no auge da ingenuidade e idealismo da população brasileira!

Na segunda parte do livro, o autor passa a fazer um estudo mais científico da questão da mente esquerdista. Mostra a cientificidade da Psicologia para o estudo do comportamento humano individual e coletivo, negado pelos esquerdistas, pois não acreditam na natureza individual e social do ser humano. Enfatiza que todas as ciências físicas e sociais possuem método, o que não ocorre com o pensamento popular a respeito de alguma coisa. Consequentemente, o conhecimento humano pela ciência é válido. Portanto, o ser humano não precisa ser guiado por nenhum governo, pois sua "rota" pode ser alterada por intervenções de profissionais. Segue o autor o estudo da evolução do ser humano desde sua infância, realçando com exemplos, nossa origem animal permanente, mesmo que tenhamos uma boa criação e educação. Os instintos de sobrevivência, de preservação dos filhos e da vida, fazem aflorar nosso lado mais primitivo e violento. O poder está implícito em nossos instintos, e para exemplificar cita os maiores ditadores da História como Hitler, Stalin e outros. O autor continua trabalhando no texto a origem dos "Estados-babá", ou seja, os governos de esquerda que prometem cuidar do povo desde o nascimento até o túmulo, sendo que sua origem está na infância desamparada de muitas pessoas. Estuda a relação mãe e filho(a) para justificar sua explicação. Mostra como a formação da personalidade da criança começa a partir dos 15 meses, e daí começa a acontecer sua independência em relação a sua mãe e às outras pessoas, este período é chamado de individuação. O homem verdadeiramente autônomo passa por este processo sem traumas. E consequentemente, este cidadão autônomo não depende de governos para realizar seus projetos de vida. Mas os governos de esquerda não se preocupam com a natureza individual do ser humano, pois querem mesmo é o poder, e para isto praticam políticas em que o cidadão fica cada vez mais dependente do Estado, como uma criança, por sua miséria material.

À medida que os capítulos se sucedem, o autor aprofunda mais a questão psicológica do ser humano em seu individualismo e sua natureza, o que contradiz a visão coletivista das esquerdas. Um pequeno texto do autor explicita este fato: "Quaisquer que sejam as contribuições dos estímulos de fora, de eventos externos ou de circunstâncias ambientais - sejam elas físicas, econômicas, sociais, políticas, raciais, étnicas ou outras - o fator mais próximo entre todos os fatores causais de meu comportamento reside dentro de mim." (pág. 185). Adam Smith é várias vezes citado como o símbolo da liberdade econômica, em oposição a um Estado centralizado como era em sua época pelo Absolutismo. Mostra, o autor, que o Estado existe para servir ao cidadão, e não o inverso, e que o indivíduo deve ser o principal atendido pelos governos e não grupos de pessoas, explicando a natureza humana desta afirmação em termos científicos. E a partir deste raciocínio mostra que a origem dos governos e líderes autoritários está na infância, ou seja, o desamparo familiar gera o poder imaginário de algumas pessoas sobre as outras para "garantir" que nunca mais serão desamparadas, passando então a oprimir as populações nos governos de esquerda, que são, por natureza, revanchistas. Voltando às questões educacionais da infância, o autor faz um estudo infantil de zero aos três anos, e revela como a evolução da personalidade autônoma do indivíduo começa sua autonomia a partir dos dois anos, no primeiro ano ainda é um bebê, totalmente dependente da mãe e do pai. A partir daí começa a fazer escolhas, perceber sua realidade e tomar decisões.

Focando o estudo na adolescência, o autor mostra que mesmo que a infância de uma pessoa seja numa família estruturada dentro dos valores da liberdade, nas relações sociais, este adolescente termina por ter que escolher em uma situação de dependência dos governos, ou seja, dos governos coletivistas autoritários, ou de um governo que garanta sua liberdade. Neste caso, o fator determinante é sua escolha. O texto do autor explicita este fato: "Sociedades que não são nem fortemente coletivistas e nem idealmente livres oferecem um "cardápio" misto ao adolescente no período em que ele imagina como poderia criar uma boa vida para si mesmo." (pág. 298). Sobre o coletivismo, em que os governos afirmam garantir o bem estar de toda a população, afirma o autor: " A verdade, no entanto, é que os beneficiários primários em tais sociedades são aqueles que comandam os governos." (pág. 299). Mas a doutrinação sobre os adolescentes é intensa nesta fase, pois os esquerdistas utilizam as escolas para esta prática, situação que vem acontecendo desde o final do século XIX e início do XX nos Estados Unidos e na América Latina. Segue o autor, a esmiuçar a agenda esquerdista, comparando-a com os governos liberais. Interessante notar uma afirmação em que o texto aponta que o indivíduo que se sobressai em suas produções, fica mais sujeito a oferecer seus serviços aos que produzem menos, pois os esquerdistas afirmam que seu bom resultado é fruto de seu governo. Mesmo os crimes cometidos são justificados pelo passado do criminoso, e até pelo seu presente de cidadão oprimido. Logo não existe punição, infelizmente é o que tem acontecido no Brasil através das decisões do STF, no mandato de um governo de esquerda. Em contrapartida, o autor afirma que a família é a principal instituição que é capaz de criar/educar o indivíduo.

A família é o tema principal a seguir. Faz, o autor, um quadro comparativo entre a visão da família liberal e a família no sistema socialista ou coletivista. Mostra suas principais diferenças a partir de textos publicados pelas esquerdas. O que notamos é a oposição em todos os aspectos, como a educação, a moral, a responsabilidade, as escolas, a sexualidade, as heranças, no mundo socialista, são todos controlados pelo Estado. A herança familiar, após a morte do pai, deve ser deixada para o Estado, pois a este pertence, e não a quem trabalhou para consegui-lo. E para o combate à sociedade tradicional, aponta, a esquerda, todos os seus "defeitos", e para sua solução propõe o controle total do Estado àquilo que foi construído ao longo da história. Aprofundando mais as questões políticas, sociais e econômicas do indivíduo e da sociedade, o autor mostra como os instintos inatos do ser humano como o sexual, o agressivo e o de aquisição, marcam a sociedade. Para o controle destes instintos defende a presença de cidadãos com personalidade formada no altruísmo, nos seus direitos e deveres, e um Estado baseado em leis que garantam estes direitos individuais.  O oposto do Estado Coletivista que vê o cidadão como uma pessoa que não saiu da infância, portanto permanentemente dependente do governo. E para o funcionamento da sociedade capitalista, a autor aponta e analisa suas regras de convivência, que viram leis, a partir da realidade vivida, não é uma sociedade sem governo, como a anarquia, precisa de normas que devem ser obedecidas em todos os setores da vida em comunidade ao longo de sua histórica.

No final do livro, o autor afirma que existem esquerdistas bem-intencionados, ou seja, veem o mundo com tanta desigualdade, violência e miséria, que acreditam que um novo governo, com característica assistencialista, tirando todo o sofrimento do povo e preocupações, seria a solução para o fim do caos instalado em setores sociais e econômicos de todos os países. Só que esta visão administrativa contraria a natureza individual das pessoas, sua permanente busca por liberdade, e sua necessidade de alcançar seus objetivos por seus próprios esforços. O autor chama estes esquerdistas de ingênuos pelo "desconhecimento" dessa natureza humana, e por não prever o modo que a população será governada, pois, ao longo da história, beneficiaram apenas uma minoria, empobreceram o povo, implantaram um sistema legal de corrupção e de aumento da impostos, e o uso da violência como formas de manutenção de seu poder. Sendo que esta prática foi iniciada e aprovada por Lênin ainda na década de 1920. É interessante notar a isenção do autor em relação ao lado bom dos esquerdistas, como defensores, mesmo que ingenuamente, de um governo que resolvesse todos os problemas dos seres humanos, como um "pai dos pobres", um clichê tantas vezes utilizados pelos ditadores. Um exemplo apenas na construção de um programa de atendimento para as populações carentes, mostra como os esquerdistas fazem mais campanhas para tomar o poder do que levar a sério suas promessas do "Paraíso Universal". O autor mostra alguns questionamentos que deveriam ser feitos no planejamento de um Programa para acabar com a fome, situação que nunca foi pensada nos governos que tentaram implantá-lo, como na África e até nos Estados Unidos. Estes projetos logo terminaram sem explicação e a população continua passando fome. No primeiro governo do Presidente Lula em 2003, criou-se o Ministério da Fome que durou apenas dois anos e despareceu sem nenhuma justificativa, e hoje quase ninguém fala ou lembra dessa promessa. Isto só para falar de um problema que todos os governos têm de enfrentar, sem contar os outros como uma Educação de qualidade, Saúde de qualidade, Segurança, Moradia, Emprego, etc. Logo os esquerdistas enganam o povo com promessas que nunca vão cumprir, mas simplesmente querem é se eternizar no poder enganando seus eleitores, e ainda falam de liberdade e democracia. Dispensam a participação popular, individual e coletiva, tantas vezes prometida, para manter sua pobreza e dependência de um Estado-babá, enganador e hipócrita.

Para terminar o estudo, o autor faz uma bela narração fictícia de um provável esquerdista que utiliza seus problemas de infância para justificar suas ações para exercer seu poder sobre outras pessoas, defendendo um Estado Parental Moderno e criticando a sociedade capitalista. Conforme o autor, sua "história" se baseou em afirmativas quase na íntegra de declarações de esquerdistas radicais. Sua narração é digna de um romance psicológico, muito esclarecedor sobre como se faz um esquerdista radical. O indivíduo não assume nenhuma culpa sobre seus atos e culpa os outros pelo seu fracasso, culpando inclusive sua família. Faz uma evolução de sua vida desde a infância, passando pela adolescência e chegando à idade adulta, quando se liga a uma instituição política de esquerda, e vê nesta, seu resgate dos problemas infantis, pois nela tudo pode fazer, contrariando a história de construção moral, disciplinar, social e econômica da sociedade que combate. Os esquerdistas radicais sonham com um governo universal para superar todas as desigualdades de todas as nações, mas na sua ingenuidade não conseguem perceber as diferentes nacionalidades do planeta com suas línguas diferentes, etnias, religiões, dentro de um único país, além da natureza individual e má de cada indivíduo. Enfim, pretendem uma igualdade em naturezas e culturas desiguais, e sem nenhuma liberdade de escolha por parte do cidadão. Analisa, o autor, a visão das esquerdas sobre o ambientalismo, o aborto, a educação e o feminismo. Suas contradições e sua relação com o mundo de liberdade, sem um Estado controlador da vida social.

O pequeno texto que dá início ao capítulo 47, de Mortimer Adler, filósofo e educador americano, explica, em poucas palavras, o sonho utópico dos esquerdistas:
"A formação de uma comunidade mundial sob um governo mundial é necessária para eliminar a distribuição desigual de recursos e riqueza que tem permitido às nações ricas dominar e explorar as nações pobres."

Excelente livro para a compreensão das relações políticas polarizadas do mundo atual.

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